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Clube da Sombra
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Este artigo se refere ao segundo capitulo da monografia realizada pela psicóloga Fabiana Bigarella, integrante da Cia Teatro Lumbra e uma das coordenadoras da produtora Clube da Sombra Ltda.


A pesquisa e a monografia foram produzidas durante seu curso de conclusão como especialista em arteterapia no Centro de Estudos em Arteterapia, psicologia e educação - CENTRARTE - Porto Alegre/Rio Grande do Sul, sob a orientação da Ms Magda Martins Mariante no ano de 2009.




O trabalho Sombraterapia - “Plantando sombras, Colhendo luzes”: Vivência com teatro de sombras - Investigação teórica, prática, intensiva e reflexiva sobre sensibilização dos sentidos
é uma pesquisa ampla e será publicada em capítulos.

Abaixo os tópicos descritos nessa publicação:
SOMBRA
Associações
Rejeição
Encontro/Revelação
Transformação




Associações

“A sombra é conhecida por muitos nomes: o eu reprimido, o self inferior, o gêmeo (ou irmão) o escuro das escrituras e mitos, o duplo, o eu rejeitado, o alter ego, o id. Usando nos vemos face a face com o nosso lado mais escuro, usamos metáforas para descrever esse encontro com a sombra: confronto com nossos demônios, luta contra o diabo, descida aos infernos, noite escura da alma, crise da meia idade.” Robert Bly(ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah,1991,p.27)

A sombra está associada a idéias de medo, de morte, de falta, sensações estas que ninguém quer ou está acostumado a sentir, ou melhor, que buscamos de várias maneiras evitá-las e aceitá-las como fazendo parte de nós. De acordo com Dethlefsen e Dahlke -2003, p.43 e 44- “... o mundo “exterior” serve como um espelho em que tudo o que vemos somos nós mesmos, especialmente a nossa sombra, para a qual, não fosse isso, estaríamos interiormente cegos”.

Precisamos de um “elemento externo” para projetarmos a nossa sombra, é no meio em que estamos inseridos que buscamos as justificativas para o nosso jeito de agir, de pensar, de nos relacionar. Colocamos a responsabilidade no que está fora de nós como causa das nossas dificuldades, limitações e medos, uma vez que é muito difícil percebermos que todas estas questões estão relacionadas ao nosso processo interno.

A sombra é o nosso guia pelos caminhos da alma humana. È a luz que nos guia durante todo o caminho pelo interior do nosso Self, é o lado escuro do Ego. Temos que reconhecer, tocar, conhecer o nosso lado escuro para podermos viver o nosso, ou no nosso lado claro, na nossa luz.

“Emoções e comportamentos negativos – raiva, inveja, vergonha, falsidade, ressentimento, lascívia, cobiça, tendências suicidas e homicidas – ficam escondidos logo abaixo da superfície, mascarados pelo nosso eu mais apropriado às conveniências. Em seu conjunto, são conhecidos na psicologia como a sombra pessoal, que continua a ser um território indomado e inexplorado para a maioria de nós”. (ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah, 1991, p.15).



Na psicologia junguiana sombra pessoal e ego caminham lado a lado. A sombra pessoal desenvolve-se naturalmente em todas as pessoas, como todas as outras instâncias psíquicas, sendo a sombra nosso depositário psíquico, segundo Zweig e Abrams -1991, p.16- “o eg o e a sombra desenvolvem-se aos pares, criam-se mutuamente a partir da mesma experiência de vida”. É o local onde depositamos tudo aquilo, que desde crianças começamos a aprender como não sendo uma atitude ou ação aceitável. É o baú onde começamos a depositar todos os sentimentos e sensações desagradáveis, tudo aquilo que não gostaríamos de ser, fazer ou sentir e principalmente o nosso lado mais assustador, escuro e revelador da nossa natureza humana.

“Nossa sombra nos infunde medo. Isso não deve causar surpresa, pois na verdade ela consiste em todos aqueles aspectos da realidade que afastamos o mais possível de nós, que menos desejamos viver ou até mesmo descobrir que existem em nosso íntimo. A sombra é tudo aquilo que estamos profundamente convencidos ser necessário expurgar do mundo para que este seja bom e íntegro. No entanto, acontece justamente o contrário: a sombra contém tudo aquilo que o mundo, o nosso mundo, mais precisa para a sua salvação e cura. É a sombra que nos torna doentes, portanto, não saudáveis, porque ela é a única coisa que está faltando para o nosso bem estar. DETHLEFSEN, Thorwald; DAHLKE, Rüdiger,2003,p.44)




Rejeição

“Tudo o que o ser humano de fato não quer, e de que não gosta, provém da sua própria sombra, visto que essa é a soma daquilo que ele não deseja ter. Entretanto a recusa em aceitar uma parte da realidade e vivê-la, não leva exatamente ao sucesso esperado. Os vários âmbitos da realidade obrigam os homens a se ocuparem intensamente com eles. Isso, na maioria das vezes, acontece através da projeção, pois assim que recusamos determinado princípio e o banimos, ele sempre gera medo e rejeição em nós,quando o encontramos de novo no assim chamado mundo exterior! (DETHLEFSEN, Thorwald; DAHLKE,Rüdiger,2003,p.42)

A tela que utilizamos no teatro de animação, como ferramenta para a projeção das sombras, equivale ao “mundo externo” que utilizamos na nossa vida, como ferramenta para a projeção dos nossos fantasmas internos, das sombras da nossa psique. Sombras essas que num primeiro momento não são percebidas, ou melhor, reconhecidas como pertencentes ao meu Eu, estão relacionadas à projeção de algo que está bem próximo, mas fora de mim.

“... a sombra se compõe de todos aqueles princípios que o Eu não quis integrar, nesse caso, em última análise, a sombra e o exterior são idênticos. Sempre vivenciamos nossa sombra como exterior pela simples razão de que, se nós a reconhecêssemos dentro de nós mesmos, ela não seria mais a nossa sombra. É nesse ponto que começamos a lutar contra os princípios que nos parecem vir “de fora” com a mesma paixão com que nos empenhamos em brigar com os que vêm “de dentro”. (DETHLEFSEN, Thorwald; DAHLKE, Rüdiger, 2003, p.43)

A sombra revela como somos verdadeiramente, o nosso lado mais tenebroso. Segundo Roberto, Casati - 2001, p.8 e 9- , “Durante o eclipse a lua perde a sua natureza de semi-deusa... Portanto, a sombra da terra revela a verdadeira natureza da lua.” Nesse momento é revelada a decepção que a falta de luz na lua, ou a sombra da terra causa, a lua passa a ser, por alguns minutos, um objeto celeste sem nenhuma graça, como tantos outros que estão no céu. Essa visão “crua” da lua nos deixa desconcertados, como pode “esse objeto” que encanta a todos, que está presente nas noites mais belas, românticas e misteriosas, que faz parte do inconsciente coletivo simbolizando beleza, perfeição, encantamento, mistério pode ser em algum momento um objeto imperfeito, sem graça, sem brilho?

Essa é a mesma sensação que sentimos: não queremos enxergar a nossa verdadeira natureza, negamos que também podemos ser “objetos” que em alguns momentos da nossa vida não seremos tão perfeitos, tão belos, tão sedutores e envolventes. Que podemos perder o encanto para os outros e para nós mesmos e que isso nos leva a entrarmos em contato com a nossa própria falta de luz. A sombra que a terra projeta na lua, é a mesma sombra que o nosso inconsciente projeta nas nossas atitudes e sentimentos que não conseguimos aceitar como fazendo parte de nós, gerando com isso uma visão distorcida de quem realmente somos.

“Tudo aquilo que nós não queremos ser, tudo o que não desejamos encontrar dentro de nós, tudo o que não queremos viver, e tudo o que não queremos deixar participar de nossa identificação, forma a nossa sombra. A rejeição da metade de todas as possibilidades não as faz de forma alguma desaparecer, mas sim apenas as exclui da identificação pessoal ou da identificação efetuada pela mente consciente.” (DETHLEFSEN, Thorwald; DAHLKE,Rüdiger,2003,p.41 e p.42)

O reconhecimento e aceitação de que essa projeção está relacionada diretamente com meu Eu mais profundo e primitivo é um processo que gera num primeiro momento estranhamento, desconfiança, negação, desconforto, tanto é que Dethlefsen e Dahlke - 2003, p.42 - referem que “Com o termo sombra designamos, portanto, a soma de todos os âmbitos rejeitados da realidade que o homem não quer ver em si mesmo ou nos outros e que, por isso mesmo, permanecem inconscientes.”. Mas com o passar do tempo, com o reconhecimento da existência da nossa sombra e do entendimento de como ela se manifesta, vão surgindo sentimentos e sensações de encantamento, deslumbramento, aceitação, experimentação até chegarmos ao ponto de conseguirmos estabelecer uma relação de troca, aprendizagem e transformação com a nossa sombra. Passamos a reconhecê-la como nossa, a perceber que o que ela projeta nada mais é do que aquilo que realmente somos, pensamos e sentimos.

Encontro/Revelação

“A sombra nos deixa doentes, o encontro com a sombra nos faz sarar”! (DETHLEFSEN, Thorwald; DAHLKE, Rüdiger, 2003, p.45)

A sombra é aquilo que “falta” nas pessoas que sofrem de alguma doença, seja ela física ou psicológica. É na nossa própria sombra que encontramos a “cura’ para os nossos sofrimentos, é na nossa escuridão interior que vamos encontrar o caminho que nos levará ao encontro da luz, da iluminação que tanto desejamos para uma vida mais digna e equilibrada. Precisamos confrontar a nossa própria sombra, para encontrar a nossa verdadeira luz, o verdadeiro sentido de estarmos vivos. Ter um caminho iluminado passa necessariamente por mergulharmos de tempos em tempos na escuridão de nossas almas, segundo Zweig e Abrams, - 1991, p.18.- “...encontrar a sombra pode ser uma experiência assustadora e chocante para nossa auto-imagem”.

O processo de encontro com a própria sombra desperta sentimentos ambivalentes: o estranhamento, o medo de entrar em contato com algo que faz parte da nossa natureza, que nos acompanha no nosso dia-a-dia, mas que não percebemos até então. E ao mesmo tempo encanta e deslumbra com a possibilidade de aos poucos nos percebermos de um modo diferente daquele que estamos acostumados a nos ver, a nos reconhecer. Para Zweig e Abrams, - 1991, p.18 -“Encontrar a sombra pede uma desaceleração do ritmo da vida, pede que ouçamos as indicações do nosso corpo e nos concedamos tempo para estar á sós, a fim de podermos digerir as mensagens misteriosas do mundo oculto”.

Nos humanos as vivências traumáticas, as defesas, o inconsciente, as dúvidas, os medos, são os obstáculos, são os objetos que interceptam a luz da consciência que projeta a sombra psíquica.

Transformação

“...Liz Greene mostra a natureza paradoxal da sombra enquanto receptáculo de escuridão e facho de luz. O lado sofredor e aleijado da nossa personalidade é aquela sombra escura e imutável, mas também é o redentor que poderá transformar nossa vida e alterar nossos valores. O redentor tem condições de encontrar o tesouro oculto, conquistar a princesa e derrotar o dragão... pois ele está, de algum, modo,marcado – ele é anormal. A sombra é, ao mesmo tempo, aquela coisa horrível que precisa de redenção e o sofrido salvador que pode redimi-la.” (ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah,1991,p.24)

Para Roberto Casati - 2001, p.64 -“... se apagarmos a luz e voltarmos a acendê-la, não é certo que encontremos a mesma sombra.” Ao apagar e acender uma luz, podemos não ver a mesma sombra que ali estava anteriormente, certamente outra sombra surgiu diferente da primeira. Por mais imperceptível e insignificante que possa ser e parecer essa modificação da sombra, ela existe, e essa percepção da transformação sutil é que vai aos poucos revelando a essência da própria sombra.

A sombra está presente mesmo no escuro, na escuridão, nós que não podemos vê-la. Elas são intermitentes, somem e voltam a aparecer dependendo do nosso desejo e disposição para percebê-las. Elas não deixam de existir, simplesmente se escondem no meio da escuridão.

A transformação da nossa percepção em relação à própria sombra passa necessariamente por um caminho, que no seu inicio está rodeado pela escuridão, por sensações de que não vamos conseguir sair da onde estamos, quanto mais nos deslocarmos e chegarmos a algum lugar. Como fomos privados da luz e num primeiro momento nada podemos ver, logo acreditamos que não podemos perceber o que está a nossa volta. Paralisados por uma crença de que sem luz nada podemos fazer, sentir, perceber, entramos em um estado de intimidação, quietos, acuados e atordoados diante de um novo mundo que se apresenta, não mais aos nossos olhos, mas aos nossos ouvidos, as nossas narinas, as nossas bocas e as nossas mãos. É a escuridão se apresentando como instrumento de novas sensações e trazendo a tona a memória afetiva e a imaginação criativa de cada um de nós.

E é exatamente nesse momento, quando começamos a perceber que podemos nos locomover na escuridão utilizando os nossos outros sentidos é que uma “iluminação” suave e gradual começa a surgir diante dos nossos olhos. “Iluminação” essa que não está relacionada à quantidade de luz que temos a nossa volta, mas sim com o fim para que utilizamos e como direcionamos esse foco de luz que começamos a perceber no meio da escuridão.

O caminho já não assusta tanto, a escuridão já passa a ser uma aliada, onde podemos ir percebendo aos poucos o que está a nossa volta, aquilo que queremos e podemos ver, sentir, tocar e principalmente reconhecer como fazendo parte de um mundo onde estamos inseridos e somos diretamente responsáveis pelos seus acontecimentos. Mundo esse que vamos tomando consciência da sua existência e percebendo que somos nós e somente nós que geramos a energia para iluminá-lo e transformá-lo em um lugar onde nos reconhecemos como parte fundamental da sua engrenagem, onde luz e sombra convivem como “seres” complementares para uma vida mais equilibrada.

“Conheça especialmente o lado escuro de você mesmo”
Connie Zweig



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