Repertório
Projetos
Clube da Sombra
Cia Teatro Lumbra
Caixa Preta
Poemas Noturnos - Cia Teatro Lumbra
 
Folguedo das Sombras - Cia Teatro Lumbra
 
Primeiras Rosas - Pia Fraus e Cia Teatro Lumbra
 
Auto Luminoso de Natal - Cia Teatro Lumbra
 
Bolha Luminosa - Cia Teatro Lumbra
Este artigo se refere ao terceiro capitulo da monografia realizada pela psicóloga Fabiana Bigarella, integrante da Cia Teatro Lumbra e uma das coordenadoras da produtora Clube da Sombra Ltda.

A pesquisa e a monografia foram produzidas durante seu curso de conclusão como especialista em arteterapia no Centro de Estudos em Arteterapia, psicologia e educação - CENTRARTE - Porto Alegre/Rio Grande do Sul, sob a orientação da Ms Magda Martins Mariante no ano de 2009.

O trabalho Sombraterapia - “Plantando sombras, Colhendo luzes”: Vivência com teatro de sombras - Investigação teórica, prática, intensiva e reflexiva sobre sensibilização dos sentidos
é uma pesquisa ampla e será publicada em capítulos.


Abaixo os tópicos descritos nessa publicação:
TEATRO DE SOMBRAS
Origem
Histórico
Teatro de Sombras no Brasil


2.2. Teatro de Sombras

“Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e pescoço acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas.
Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que transportam objetos de toda espécie, que o transpõem: estatuetas de homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria; naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem em silêncio.
E se a parede do fundo da prisão provocasse eco, sempre que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra que passasse diante deles?”
(Platão, 2000, 225-6)


2.2.1. Origem

O Teatro de Sombras é considerado umas das Artes mais antigas praticada pelos homens, têm como berço a civilização chinesa e sua origem ligada aos ritos religiosos e pensamentos mágicos. O habitat dos mortos era conhecido como “Reino das Sombras”, uma vez que se utilizava de expressões tais como “a sombra dos mortos”, situações que revelam a associação direta da sombra com a morte.

“Da origem mágica e religiosa do ritual vai surgir o teatro, que é a expressão lúdica de um momento sagrado. As lendas explicam maravilhosamente bem o que, no seu início, não era outra coisa que o impulso irrefreável de um desejo: o desejo de recuperar no presente uma pessoa já morta ou um ser ou coisa estimados e já desaparecidos ou distantes.” (Badiou, Marise,2004, p4).

Conta-se que a origem do Teatro de Sombra na China, está justamente ligada ao desejo do homem de triunfar sobre a morte, de fazer reviver eternamente um ser querido. E foi do desejo, de que a sua bailarina preferida voltasse a viver, é que o Imperador da China Wu-Di no século II A.C, ordenou ao Mago de sua corte que a trouxesse de volta a vida.

De acordo com Acioli, José Filho, 2007, p1:
“Usando a imaginação, o Mago e, através da pele de peixe macia e transparente, confeccionou a silhueta de uma bailarina. Quando tudo estava pronto, o Mago ordenou que no jardim do palácio, fosse armada uma cortina branca contra a luz do sol e que esta deixasse transparecer essa luz. Fez uma apresentação para o Imperador e sua corte, que foi acompanhada de um som de uma flauta que fez “surgir a sombra de uma bailarina movimentando-se com leveza e graciosidade.”


2.2.2. Histórico

Segundo, Badiou - 2004, p.4 - “Essa fábula, que narra à recuperação de um morto através da reprodução de sua sombra, se encontra igualmente em outras tradições.” A China é tida como o berço do Teatro de Sombras, acompanhada pela Índia e Sudeste Asiático. Acredita-se que no início suas apresentações estavam reservadas as cortes e ligadas a um ritual. Com o passar dos tempos ganhou as ruas sendo realizado em tendas com temáticas ligadas as lendas populares, as divindades protetoras da colheita do cereal e até mesmo para celebrar nascimentos, casamentos e mortes, como um meio de comunicação com o sagrado.

No início as silhuetas eram recortadas em papel de arroz e queimadas, um material que demonstra a fragilidade e efemeridade tanto do material, quanto da encenação. Telas de seda branca, lamparinas de azeite e músicos tocando ao vivo completavam o cenário desses espetáculos. Com o passar dos anos e o contato com outras províncias, as silhuetas passam a ser confeccionadas com couro de animais e a ter tamanhos diferentes entre si.

Badiou -2004- relata que na Índia, o Teatro de Sombras está presente na maioria dos estados e que algumas encenações com cunho religioso, chegavam a durar quarenta e uma noites, atualmente é possível assistir em vinte e uma noites. A apresentação é realizada em uma grande tela, por meio de figuras recortadas em pele de camurça, de cor variável de acordo com a personalidade do personagem e projetadas por quarenta e uma fontes luminosas. Além disso, os personagens bons se encontram a direita e os malvados à esquerda. Outra tradição de grande beleza na Índia são as sombras de Andra Pradesh, consideradas as maiores do mundo, com dimensões humanas que podem alcançar um metro e cinqüenta centímetros de altura e confeccionadas com pele de cabra e búfalo, que nasceu duzentos anos antes da nossa era.

Em Bali, o Teatro de Sombras está inserido na vida cotidiana do povo. Pode ser encontrado como um espetáculo de mera diversão, mas, sobretudo está ligado as cerimônias religiosas dos deuses e antepassados deificados, no suporte do culto dos mortos, nos ritos de iniciação dos adolescentes e nos de consagração de sacerdotes, como nas cerimônias de exorcismos ou de prevenção de maus espíritos.

“Nestas ocasiões, com o objetivo de que a função litúrgica obtenha o objetivo desejado, a cerimônia do teatro de sombras se envolve numa infinidade de códigos e de símbolos que tendem a integrar a comunidade em um sistema ordenado, capaz de protegê-la e conduzi - lá, através do ritual, a um absoluto purificador e regenerador de novas forças” (Badiou, Marise,2004,p7)

O Teatro de Karagoz (“o homem do olho negro”), teatro de sombras Turco, possui uma veia criativa e satírica da sociedade islâmica, tendo como temática as questões sociais e políticas, retratando todos os tipos humanos que constituem uma sociedade descrita no século XIX e não os temas religiosos, como a maioria dos teatros de sombras do Oriente. As silhuetas são feitas de pele de asno ou de tripas e tem uns vinte centímetros de altura, são pintadas com cores vivas e projetadas em uma pequena tela, iluminadas antigamente por lamparinas de azeite.

“Cada personagem pode mover a cabeça, o peito, as pernas as mãos e os dedos, mas são raros os que têm o braço articulado. A exceção de Karagoz, o herói deste teatro, cujo braço também cumpre a função de um falo móvel, utilizado tanto para seduzir as mulheres como para espancar a seus inimigos.” (Badiou, Marise,2004,p9)

O teatro de sombras chega a Europa no final do século XVIII, século das luzes, através das projeções da lanterna mágica do alemão Athanasius Kircher, composta de uma caixa, uma fonte de luz e lentes que enviavam imagem para uma tela. As sombras e as projeções de imagens fixas da lanterna mágica tornam-se moda na Europa. As silhuetas de papel recortado, negras sobre fundo branco e bidimensionais, foram utilizadas na construção de personagens para espetáculos de teatro de sombras em pequenas telas.

As sombras tomam conta de Paris nos denominados teatros de salão, na Cataluna, em Barcelona no Hospital de Santa Cruz, na França projeções de sombras humanas em pequenos teatros. No Século XX ganham espaço no cinema, nos musicais sendo utilizadas como efeitos especiais. E também ganham o gosto popular, nas brincadeiras familiares através da “arte de fazer sombra com as mãos”.

Mas, a mesma Paris que se encanta com as sombras em seus teatros de salão no final do século XVIII, se rende no ano de 1895, a uma apresentação pública no Grand Café de Paris, ao Cinematógrafo criado pelos irmãos franceses Luis e Augusto Lumière, onde eram vistas imagens ampliadas projetadas em uma tela. Nascia o cinema no mundo e se iniciava a decadência do teatro de sombras na Europa.

“Este gênero consegue agrupar o sistema subjetivo de Platão e o sistema objetivo de Aristóteles, demonstrando assim a grande profundidade de uma arte que aposta na visão não maniqueísta do mundo e busca a verdade reunindo as diferenças.” (Badiou, Marise,2004,p1)


2.2.3. Teatro de Sombras no Brasil

“O Teatro de sombras, que em sua essência apresenta uma dualidade, uma ambivalência, oferece um universo que, por analogia, nos remete a um processo mental que o ser humano realiza constantemente na vida cotidiana; o processo de semiotização da realidade.” (Badiou, Marise, 2004, p1)

O Teatro de Sombras é um gênero do Teatro de Animação onde a imagem que está sendo projetada é a protagonista da narrativa. As imagens tornam-se legíveis e ganham sentido diante das pupilas dilatadas de seus espectadores quando o sombrista*, que opera as luzes e os objetos que geram as sombras, forma imagens e signos possíveis de serem decodificados e compreendidos como uma narrativa.
Durante essa experiência entre sombrista e espectador os múltiplos sentidos que ambos colocam a disposição se desenvolvem ao longo do tempo dramático, sugerindo emoções através do estranhamento, do encantamento, do medo e outras sensações que ocorrem nessa troca. O que é visto nas projeções se completa ao ser interpretado e sentido pelo espectador. Segundo Badiou – 2004, p.2 - “Dentro de um processo de semiotização, podemos constatar que o teatro de sombras, por sua dicotomia intrínseca (objeto de referência e sua sombra), potencializa ao quadrado o valor semântico de referência.” A força da atuação sobre a realidade do objeto modifica a sua imagem de tal forma que pouco resta de seu significado verdadeiro como objeto, pois, o objeto por si só fora da cena, longe da luz, pode não passar de mais um objeto de referência na busca de algum sentido.

“A cultura brasileira conhece a sombra apenas como um alento: proteção do sol escaldante das regiões entre o trópico e a linha do Equador. Nosso país desconhece qualquer tradição da sombra como arte e não tem registros nos costumes dos nossos ancestrais indígenas. O que existe por aqui é uma memória afetiva e de resíduos no inconsciente. Quase tudo produzido e reproduzido pelos colonos europeus.” (Fávero, Alexandre, 2009).

Essa possível memória da sombra existe graças à ausência da energia elétrica. Antes ou depois do advento da lâmpada, a escuridão sempre foi a grande geradora de sombras assombradas, zombeteiras, brincalhonas e hipnotizantes. Na idade das cavernas ou nos condomínios de apartamentos, no meio rural ou urbano, na Rússia ou no Chile a ausência das intensas luzes incentivou alguém a acender uma fogueira, uma vela, um lampião, uma lanterna e que possibilitou ver a sombra como uma forma diferente e intrigante de manifestação. No silêncio noturno apareceram as primeiras assombrações, brincadeiras com as mãos, histórias tenebrosas, silhuetas recortadas e outras projeções da imaginação infantil. Ouço muitos adultos relatarem que já brincaram com sombras quando faltou energia e que essa memória persiste como uma lembrança remota. Certamente a arte das sombras depende desse clarão do passado, como uma espécie de conexão com o inverso de um universo esquecido e muito pessoal. Somente os donos das sombras têm o poder de dar um valor emotivo às sombras. Quando fazem parte desse mistério, seja como espectador ou como ator, algo estranho no seu íntimo acontece.

“Sendo assim, fica cada vez mais claro que esse Brasil sem tradição na arte das sombras, tão distante do berço do teatro de sombras tradicional do oriente, sem contato com as referências clássicas ou modernas da Europa, acaba encontrando na capacidade emotiva e na necessidade criativa a sua expressão mais original e diferenciada. O teatro de sombras no Brasil está sendo escrito no escuro. Noite após noite. É só apagar as luzes da razão e deixar a luz da emoção nos guiar por essa aventura”. (Fávero, Alexandre, 2009).

No Brasil o Teatro de Sombras, ainda é pouco conhecido e difundido, são pouquíssimas companhias de teatro que estruturam seu trabalho a partir dessa linguagem do Teatro de Animação. Muitos grupos se utilizam do recurso das “sombras”, como mais um efeito para resolver cenas de espetáculos, o que caracterizam espetáculos COM a utilização do recurso do teatro de sombras, mas não espetáculos DE teatro de sombras.

“Atualmente no Brasil, talvez o melhor representante deste tipo de teatro inovador seja a Companhia Teatro Lumbra, de Porto Alegre/RS. A premiadíssima companhia traz, além de uma qualidade estética e técnica impecável, uma ênfase na pesquisa da linguagem do Teatro de Sombras procurando difundi-la através de oficinas em todo Brasil... Podemos também destacar a Companhia Karagozwk de Curitiba/PR, como mais um importante expoente desta arte milenar renovada pela pesquisa, esforço e criatividade de seu fundador, Marcello Andrade dos Santos.” (Almanaque Sombras e Luz, SESC, 2009).

*São profissionais que pesquisam, criam, idealizam, projetam, constroem, montam, atuam, operam e elaboram cenas dramáticas através da utilização das luzes e sombras projetadas. Lidam com diferentes matérias-primas e tecnologias, exigindo conhecimentos e habilidades manuais para a criação de objetos cênicos e na elaboração de soluções técnicas para o seu funcionamento na cena. (Fávero, Alexandre, 2009).


*Todas as imagens desse capítulo são de atividades artísticas da Cia Teatro Lumbra de Animação/Clube da Sombra Produções
Compartilhar no Facebook
< Voltar
© Clube da Sombra (51) 3446 9134 / (51) 9978 5657 / clube@clubedasombra.com.br