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Este artigo se refere ao quarto capitulo da monografia realizada pela psicóloga Fabiana Bigarella, integrante da Cia Teatro Lumbra e uma das coordenadoras da produtora Clube da Sombra Ltda.

A pesquisa e a monografia foram produzidas durante seu curso de conclusão como especialista em arteterapia no Centro de Estudos em Arteterapia, psicologia e educação - CENTRARTE - Porto Alegre/Rio Grande do Sul, sob a orientação da Ms Magda Martins Mariante no ano de 2009.

O trabalho Sombraterapia - “Plantando sombras, Colhendo luzes”: Vivência com teatro de sombras - Investigação teórica, prática, intensiva e reflexiva sobre sensibilização dos sentidos" é uma pesquisa ampla e será publicada em capítulos.


Abaixo os tópicos descritos nessa publicação:

ARTETERAPIA
Arteterapia como processo terapêutico
Contextualização histórica da arteterapia


2.3 ARTETERAPIA

“A arte é importante porque ela celebra as estações da alma, ou algum acontecimento trágico ou especial na trajetória da alma. A arte não é só para o indivíduo; não é só um marco da compreensão do próprio indivíduo. Ela é também um mapa para aqueles que virão depois de nós”. Estés, 1994, p. 29



2.3.1  Arteterapia

“... é um processo terapêutico que auxilia a resgatar, a desbloquear e a fortalecer potenciais criativos, através de formas de expressão diversas. Este processo terapêutico facilita que cada um encontre, comunique e expanda o seu próprio caminho criativo singular. Favorece através do ato criativo, a expressão, revelação e reconhecimento do mundo interno e inconsciente e permite libertar criaturas que nunca vieram a luz, presas que estavam, em modos antigos de funcionar. (PHILIPPINI, Angela,2000,p14)

A arteterapia é um recurso psicoterapêutico que utiliza a Arte como ferramenta no processo de busca do autoconhecimento e de uma melhora da qualidade de vida dos indivíduos e dos coletivos. Para Duarte Jr, João Francisco – 2005 - a Arteterapia se caracteriza como um instrumento para a “reeducação do sensível”. Sensível este que está adormecido diante de um mundo embrutecido e veloz, e oculto nos simulacros criados pelo próprio homem com o intuito de reproduzir situações e lugares idealizados no mundo externo, evitando assim, um contato direto com a Natureza, com a sua própria Natureza Humana.

A Arteterapia entra justamente nesse vazio/espaço estabelecido entre o mundo externo e interno dos nossos sentimentos e sensações. Resgata os laços, as ligações daquilo que somos capazes de realizar por nos mesmos, o que temos habilidades e condições de criar a partir das nossas vivências e emoções, estimula e nos desperta para aquilo que de mais especial e único está presente na essência de cada um de nós. A Arteterapia viabiliza um caminho que nos afasta da repetição, do impessoal, da via expressa, que vai justamente para o lado oposto ao consumo de tudo e de qualquer coisa que não tenha um sentido próprio, que não nos sensibilize e emocione. 

 “... o fazer arte enquanto expressão humana e o fazer terapia pressupõe que: a) a expressão “artística” revela a interioridade do homem, falado modo de ser e visão de cada um e seu mundo. Este ato revela um suposto sentido e, cada teoria e método em arteterapia e terapia expressiva se apodera desse ato diferentemente;.b) por intermédio desse “fazer arte” o terapeuta pode estabelecer um contato com o cliente possibilitando a este último o auto conhecimento, a resolução de conflitos pessoais e de relacionamento e o desenvolvimento geral da personalidade.” (ANDRADE, Liomar,1995,p.5)


2.3.2  Arteterapia como processo terapêutico

“A arte passa a ser um instrumento, técnico e conceitual, de um método de trabalho, ao combinar o fazer arte, o uso de materiais plásticos e outras formas de expressão a um objetivo educacional ou terapêutico. As arteterapias e as terapias expressivas procuram juntar essas duas atividades, ou seja, o fazer arte enquanto expressão humana e o fazer terapia.” (ANDRADE, Liomar, 1995, p.4 e 5)

De acordo com Andrade (1995) a expressão humana, desde a época das cavernas até hoje, é simbólica, verbal ou visual e potencializa a expressividade humana. Com o surgimento da animação, que consiste em uma ação ou efeito que dá alma ou vida a desenhos, bonecos, objetos, silhuetas produzindo a ilusão de movimento a partir de imagens fixas, os canais de comunicação humana se ampliam possibilitando “ser a cultura mais veiculada pela imagem do que pela palavra” (ANDRADE, Liomar - 1995, p.4). 

E é justamente desse encontro, da arte como expressão, mesmo que inconsciente, do comportamento, do sentimento, das sensações e percepções humanas, com a psicoterapia, que busca trazer a consciência as atitudes, desejos e criações humanas é que surge a Arteterapia, combinação entre criação artística enquanto técnica e criação artística enquanto conteúdo psicológico. 


2.3.3 Contextualização histórica da arteterapia

“Seguindo uma tradição científica do século XIX, Freud configurou a psicanálise como uma teoria de compreensão do funcionamento do psiquismo humano e estabeleceu uma técnica de tratamento psicoterápico pelo diálogo entre o analista e o analisando, a terapêutica do encontro e do diálogo (“ talking cure”). Muitas formas derivadas dessa primeira abordagem foram elaboradas ao ampliar, criticar, modificar métodos e recursos utilizados além do estritamente verbal. Todos os métodos de compreensão do psiquismo humano e possível atuação sobre ele advém da noção de simbolização.” (ANDRADE, Liomar,1995,p.2)

A arteterapia surge de uma necessidade de expressão que pudesse exceder os limites do verbal, que coloca-se em imagens, em símbolos, em signos os sentimentos e as sensações vivenciadas. Segundo ANDRADE - 1995, antes das duas guerras mundiais, a expressão verbal: literatura, rádio, jornal eram os meios de comunicação mais utilizados. Com o fim da 2ª Guerra Mundial, com os questionamentos de valores, de enfoques, de visão de mundo e com o desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação de massa o recurso comunicativo deixa de ser verbal e passa a ser visual. Cada vez mais a imagem passa a ter um maior valor na expressão de idéias, conceitos e sentimentos. Dessa maneira surge um novo modo de se perceber o mundo: mundo esse que habitamos e mundo esse que habita dentro de nós. 

Nesse momento as demandas pelas terapias degrupo aumentam consideravelmente, buscando na psicologia recursos para um entendimento e um desenvolvimento de processos que acelerassem e efetivamente auxiliassem as exigências de uma nova sociedade que se reestruturava, a partir da revelação do lado mais sombrio e assustador do ser humano, que só as grandes guerras e a violência urbana atual podem revelar. 

De acordo com Andrade - 1995, p.5 - “Margaret Naumberg foi a primeira a sistematizar a arteterapia, em 1941... As imagens viriam antes das palavras, por serem mais diretas e inteiras; completas”. Segundo Ciornai - 1999, foi nos anos 50 que começaram a ser lançadas as sementes da arteterapia, com o surgimento da arte educação, na chamada era pós-industrial, período marcado por mudanças significativas no modo do homem perceber o mundo e se relacionar com ele.

“Em 1958, Edith Kramer, também pioneira da arteterapia, passou a observar o comportamento além do produto final, não levando tanto em consideração o trabalho de arte, o produto feito, mas dando prioridade para o processo de fazer arte sem a necessidade de verbalização. A função do arteterapeuta transforma-se: da interpretação do produto para a compreensão do meio, da linguagem plástica. A partir da aceitação do produto realizado e da compreensão deste processo por parte do terapeuta, o cliente pode ter uma experiência altamente significativa com a aquisição do conhecimento de seu funcionamento psicológico.” (ANDRADE, Liomar,1995,p.6) 

Andrade, 1995, relata que no ano de 1973, Janie Rhyne, enfatiza a valorização do presente, do “fazer consciente”, confiando desse modo nos referencias da experiência pessoal como recurso terapêutico, com isso busca aplicar os princípios da Gestalt-terapia no trabalho com arte. Já em 1974 Natalie Rogers, filha de Carl Rogers, aplica os princípios da teoria “centrada na pessoa” ao seu trabalho de terapia expressiva e desenvolve um trabalho denominado “ Conexão Criativa”, onde propõe a utilização de várias artes; como pintura, teatro, modelagem, expressão corporal , dança, música, mímica utilizando a abordagem rogeriana, buscando facilitar a verbalização e compreensão do próprio sujeito sobre a sua criação.

Conforme Andrade – 1995 - Nise da Silveira desenvolveu seu trabalho de terapia expressiva e arteterapia a partir de pesquisas que buscavam a compreensão do universo mental de pacientes internados, encontrando respostas na teoria junguiana. “A autora propunha aos seus pacientes a execução de trabalhos em pintura ou desenho, argila. Sugeria-lhes que tocassem música, dançassem e fizessem representações dramáticas, possibilitando-lhes usar uma linguagem arcaica de imagens simbólicas e dar forma plásticas-expressiva aos intensos desejos e emoções que brotavam de seus psiquismos.”

Philippini - 2000 - relata que no início dos anos 80 surgiram no país, transformações significativas na produção cultural e nas novas práticas terapêuticas: “Instaurou-se um período muito fértil de criação e o trabalho clínico recebeu as inovações de inúmeras terapias, chamadas genericamente de expressivas e, entre elas, a arteterapia que pode retornar, com melhores chances de enraizamento”. 
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