Repertório
Projetos
Clube da Sombra
Cia Teatro Lumbra
Caixa Preta
 
 
Este artigo se refere ao quinto capitulo da monografia realizada pela psicóloga Fabiana Bigarella, integrante da Cia Teatro Lumbra e uma das coordenadoras da produtora Clube da Sombra Ltda.

A pesquisa e a monografia foram produzidas durante seu curso de conclusão como especialista em arteterapia no Centro de Estudos em Arteterapia, psicologia e educação - CENTRARTE - Porto Alegre/Rio Grande do Sul, sob a orientação da Ms Magda Martins Mariante no ano de 2009.

O trabalho Sombraterapia - “Plantando sombras, Colhendo luzes”: Vivência com teatro de sombras - Investigação teórica, prática, intensiva e reflexiva sobre sensibilização dos sentidos" é uma pesquisa ampla e será publicada em capítulos.


Abaixo o tópico descrito nessa publicação:

SOMBRATERAPIA
Sombra Individual
Sombra Coletiva
Vivência com Sobras


2.4.1 Sombraterapia

“A beleza não está na coisa,
ela mesma,
mas no padrão das sombras,
na luz e na escuridão
que uma coisa cria quando esta em face da outra.”

Junichiro Tanizaki


A Sombraterapia busca, através da ampliação simbólica e do relaxamento das defesas psíquicas, “revelar” e estreitar o contato entre a consciência e os conteúdos inconscientes que estão na sombra da estrutura psíquica. Tem por objetivo dar uma ou algumas cores, formas, imagens, sons para a sombra pessoal e/ou coletiva.

“Todo homem tem uma sombra e, quanto menos ela se incorpora à sua vida consciente, mais escura e densa ela será. De todo o modo, ela forma uma trava inconsciente que frustra nossas melhores intenções” C.G.Jung (ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah, 1991, p.26)

A proposta da Sombraterapia vai além do uso dos recursos plásticos, ela busca no Teatro de Animação, na linguagem das sombras o recurso para que o processo de autoconhecimento se dê muito além do que pode ser dito, mas sim do que pode e deve ser revelado através da projeção do corpo, da mente, da alma. Proporciona encontros entre luz e sombra, consciente e inconsciente, significado e significante, individuação e coletivo, ego e self, medo e transformação, corpo e alma, vida e morte. 

A Sombraterapia busca despertar a potencialidade expressiva da própria sombra através de experiências dinâmicas e exercícios práticos, desenvolvendo e despertando as habilidades criativas e expressivas para o autoconhecimento e desenvolvimento pessoal e coletivo. 

“Nas arteterapias são usados recursos de artes plásticas com fins psicoterápicos, enquanto na arte educação o objetivo é a aprendizagem. Nas terapias expressivas são usados expedientes de: teatro, movimento, dança, som, música, escrita, além dos materiais plásticos.” (ANDRADE, Liomar,1995,p.5) 

A associação da sombra à morte se relaciona na Sombraterapia a possibilidade de estar em contato com os nossos medos, com as nossas dificuldades, com o nosso lado mais oculto e assustador, possibilitando levar luz até ele, remexer, descobrir, encontrar consigo mesmo, fazer escolhas e principalmente lançar mão do que não nos serve mais. Ou seja, velar e enterrar velhas e assustadoras sombras que nos acompanham desde sempre, clarear os nossos focos, os nossos desejos, revelando aos poucos outras sombras e luzes que constituem o nosso self e sinalizam as trilhas que percorremos ao longo da nossa caminhada pela vida.

“O objetivo de encontrar a sombra é desenvolver um relacionamento progressivo com ela e expandir o nosso senso do eu alcançando o equilíbrio entre a unilateralidade das atitudes conscientes e as nossas profundezas inconscientes.” 
(ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah, 1991, p.23)

Processo psicoterapêutico que vai além de um diálogo honesto e da interpretação de sonhos, possibilita uma visualização da própria sombra. Em um primeiro momento a sombra como uma projeção do seu corpo e logo em seguida a sombra como projeção da sua alma. Corpo-alma/luz-sombra: materialização de sensações e sentimentos.

A sombra como recurso terapêutico revela todo seu poder sobre nós, o poder do desconhecido, do não dito, do não visto, do que é inconsciente. Revela o que não estamos acostumados ou preparados para ver, possibilita uma viagem introspectiva ao nosso eu mais oculto e sombrio, é o passaporte para o mundo interno. É o encontro do preto, do escuro, do inconsciente com o branco, o claro, o consciente, é a miscigenação entre o mundo das trevas e o mundo da luz. É o ponto G do self, é onde sentimos o êxtase da vida e da morte, onde o prazer e a dor se encontram, se acariciam, se tocam, se visualizam, se alisam e se abandonam. 

A presença da sombra causa fascínio quando ligamos a sua existência a nossa existência, só conseguimos ver a nossa sombra quando estamos iluminados e nos dispomos a vê-la. Muitas vezes, quando nos permitimos e nos aventuramos a espiar, olhar e principalmente transpor a “nossa tela” de sombras, nos deparamos com gratas e reveladoras surpresas: somos e precisamos de poucas e simples coisas, afetos e sentimentos para fazermos de nossa vida um grande espetáculo, essa é a essência da Sombraterapia.

“... se praticamos alguma atividade artística com o objetivo de se fazer psicoterapia, isto é, procurar facilitar a resolução de conflitos interiores, afetivos e comportamentais utilizando-se de algum meio de expressão artística, aí está-se praticando arte com uma função e orientação psicoterapêutica.” (ANDRADE, Liomar,1995,p.8”)

Podemos escolher viver a sombra de alguém, de alguma coisa, de alguma idéia, essa é uma bela ilusão, e a nossa sombra sabe disso. Por isso atenção, qualquer descuido seu, qualquer possibilidade de luz, lá está ela assombrando a sua ilusão, vazando por todos os lados e revelando que você nunca está só. Quem tem a sombra como companhia nunca está sozinho. 

Não perca a sua sombra de vista!

 “É a condição “sine qua non” que a arte esteja no centro do trabalho para este poder ser considerado arteterapia.”... “A arte é, portanto, a coluna vertebral da arteterapia, a única justificativa para a mesma se constituir como uma disciplina diferenciada”. (ANDRADE, Liomar,1995,p.9) 


2.4.2 Sombra Individual


“A individuação – o processo de uma pessoa tornar-se toda e única – tem como objetivo abraçar simultaneamente a luz e a as trevas para criar um relacionamento construtivo entre o ego e o self (nosso símbolo pessoal da totalidade individual). No encontro terapêutico, através de um diálogo honesto e interpretação de sonhos, temos o meio para enfrentar nossa elaborada charada de aparências e aceitar quem realmente somos. Essa tarefa de assumir a nossa personalidade inferior em geral exige a presença – e é acelerada por ela - de uma testemunha, sob a forma de um terapeuta ou guia. Esse processo é um despertar gradual para a sombra...” James Hillman(ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah,1991,p.264)

Os espaços onde podemos encontrar a nossa sombra são regiões da nossa estrutura psíquica de difícil acesso, onde não estamos acostumados a acessar e principalmente onde evitamos nos aproximar, não é um lugar concebido para nos trazer a falsa sensação de segurança e bem estar, ele é construído durante um processo de reconhecimento desse espaço e de tudo que nele está inserido, é preciso aprender a distinguir aquilo que realmente pertence ao meu mundo daquilo que pertence ao Outro. 

“Marie-Louise Von Franz reconhece a relação entre o diabo e a sombra pessoal quando diz: Na verdade, o princípio da individuação está relacionado com o elemento diabólico na medida em que este último representa a separação do divino dentro da natureza. Os aspectos diabólicos são os elementos destrutivos – os afetos, o impulso autônomo de poder e coisas semelhantes. Eles rompem a unidade da personalidade.”  ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah,1991,p.21)

Temos uma forte tendência a olhar, a pensar e principalmente falar daquilo que é do outro, do que não gostamos no outro, sendo muito difícil perceber o que está em nós, o que nos constitui, o que nos enfraquece e fragiliza. Estar seguro com a própria sombra é um exercício constante de reconhecimento de um espaço que está em constante processo de expansão, retração, desenvolvimento e criação. Esse espaço nunca será o mesmo, uma vez que, a cada nova vivência, que a cada nova invasão de luzes ele se transforma e novas sombras são criadas, projetadas e reveladas diante dos nossos sentidos. 

“A sombra pessoal contém, portanto, todos os tipos de potencialidades não-desenvolvidas e não expressas. Ela é aquela parte do inconsciente que complementa o ego e representa as características que a personalidade consciente recusa-se a admitir, portanto, negligencia ,esquece e enterra... até redescobri-lás em confrontos desagradáveis com os outros.” (ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah,1991,p.17)

Para Estés, 1994, p.561 “Agir como sombra significa ter um toque tão suave, um passo tão leve, que torna possível uma movimentação livre pela floresta, observando sem ser observada.” Agir como sombra significa ser delicado o suficiente para não ser percebido, mas intenso o possível para ser sentido. É olhar sem ser visto, é acompanhar sem ser percebido, é estar presente, desaparecer e voltar a aparecer de um novo modo e de um novo jeito em cada aparição. É revelar cada detalhe, momento, imagens, emoção de uma maneira diferente. A sombra nunca se revela da mesma maneira em nenhum momento, ela é como o rio que corre sem parar, está sempre presente, sempre em movimento, mas a cada instante é uma nova água que corre, é uma nova sombra que se forma e se revela aos nossos sentidos.  

Se apropriar da própria sombra é um processo que exige uma disponibilidade constante de investimento e coragem para vivenciar situações e experiências que tenham como objetivo um encontro consigo mesmo, com o seu lado mais sombrio e assustador, mas esse é o meio para se chegar a um fim, ou seja, precisamos entrar em contato com os nossos medos, com os monstros que habitam o nosso interior mais profundo, considerá-lo com atenção, observar, explorar e a partir disso, reconhecê-lo como fazendo parte das nossas vidas, do nosso Self e aí sim, ir ao encontro da nossa luz e concebermos a imagem de quem realmente somos. 

 “A força selvagem da psique da alma está nos seguindo como sombra por algum motivo... se você está em processo de descida, seguindo a perseguição de uma grande força, e se essa força conseguir agarrar a sua sombra, você também irá se transformar numa força por si mesma”. (Estés,1994,p. 561)



2.4.3 Sombra Coletiva

 “O mundo tornou-se um palco para a sombra coletiva” 
                                        (ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah, 1991, p.19)

Vivemos uma época onde a maldade humana, o lado perverso da humanidade (sombra coletiva) toma conta do nosso dia-a-dia, ganha destaque diário nos noticiário da TV, manchetes enormes e coloridas nos jornais, na internet, vira roteiro de novelas, seriados, filmes, invade nossas vidas refletindo diretamente nas relações de trabalho, amorosas e familiares. É uma época de alegorias, de quantidades, de exageros, de excessos, de aparências. Era dos simulacros: dos shoppings, dos sabores e corpos artificiais, vida artificial, sensações artificiais. As sensações não são mais criadas pelos sentidos, mas são simplesmente reproduzidas. 

Período onde o corpo se torna objeto de compra e venda, onde o que importa é o que aparentamos ser e não o que realmente somos. Os corpos não são só os humanos, os corpos também são objetos de desejo e consumo (roupas, carros, casas, celulares), corpos esses que tem mais vida e mais valor que os corpos humanos. Corpos que formam imagens, que vendem imagem, imagens essas que fazem homens, esses mesmos homens que usam essas imagens como referencial de vida: aparência; que se aproveita dessas imagens para construir o seu imaginário individual e coletivo e fazer delas verdades absolutas, desejos inatingíveis para a maioria dos humanos e objeto de inveja e admiração.

Segundo B.Capelier (citado por Paim,Sara,1996,p. 10) a condição humana se resume em três premissas:

“- o homem é este ser que se faz imagem,
- o homem é este ser que se faz das imagens,
- o homem é este ser que faz as imagens.”

As roupas, ou melhor, as grifes, as marcas, o silicone hoje são os simulacros da vida, da existência, da felicidade. Ter um corpo não basta, ter um belo corpo não basta, ter belas roupas que cubram ou revelem esse corpo não basta. Ter um belo ter não basta, porque temos um ser assombrado nos acompanhando o tempo todo.

Os “corpos” se modificam, se repaginam, se revelam de outras maneiras. A sombra, também pode ser modificada, mas a sua essência será sempre a mesma: reveladora, de tudo aquilo que existe de mais intimo, belo e aterrorizante em nós e no mundo. Essa é a cultura contemporânea: ocultar sombras, revelar corpos. 

A Sombraterapia trabalha justamente no espaço oposto a este, onde o corpo perde lugar para a sua sombra, a quantidade de acessórios, de alegorias, de adereços é substituída pelo que está além do corpo, da forma, do volume. O que conta é o que a sombra tem para oferecer a quem lhe encontra a quem se dispõe a percebê-la e não o quanto ela possui. O que está em questão é o que a “réplica intangível de um corpo tangível” (Marise Badiou,2000,p1.) pode oferecer. Essa é a cultura da Sombraterapia: revelar sombras, ocultar corpos.

“A liberdade individual estará sempre ameaçada por qualquer forma de poder totalitário, pois esta projeta sempre uma sombra sedutora sobre os princípios particulares. Aí se perdem as tradições, os ritos e os referenciais fundamentais à continuidade existencial plena, seja por restrições sócio-políticas ou religiosas. Cada um não é mais cada um. Por outro caminho, somos um pedaço da massa indiferenciado, absolutamente distanciado do movimento que rege o Universo”. A sombra deve ser “digerida” em parte, para que possamos aceitar nossas limitações e lidar com elas. Só assim será possível uma reintegração em direção ao crescimento e à individuação.” (A Importância do Deus Wotan na Criação da Alemanha Nazista)


2.4.4 Vivência com Sombras

“Através do trabalho com a sombra (expressão que cunhamos para nos referir ao esforço continuado no sentido de desenvolver um relacionamento criativo com a sombra), podemos:

Chegar a uma auto-aceitação mais genuína, baseada num conhecimento mais completo de quem realmente somos;
Desativar as emoções negativas que irrompem inesperadamente na nossa vida cotidiana;
Nos sentir mais livres da culpa e da vergonha associadas aos nossos sentimentos e atos negativos;
Reconhecer as projeções que matizam as opiniões que formamos sobre os outros;
Curar nossos relacionamentos através de um auto-exame mais honesto e de uma comunicação direta;
E usar a nossa imaginação criativa (através de sonhos, desenhos, escrita e rituais) para aceitar o nosso eu reprimido.
                                                                                                         ZWEIG, Connie; ABRAMS, Jeremiah,1991,p.24

A Vivência com Teatro de Sombras é uma experiência artística que se caracteriza pela pesquisa teórica, prática, investigativa, reflexiva da utilização da linguagem das sombras no processo criativo individual e de grupos.

“Além da função social, a arte pode ter uma função terapêutica, desde o teatro grego por intermédio de níveis diversos de identificações, o público liberava sentimentos e emoções, catarticamente.” (ANDRADE, Liomar,1995,p.2)

De acordo com, Ana Maria Amaral - 1997, p.18 - “O Teatro de Animação: não se expressa através do corpo do ator, muito pouco por palavras, mas, sim, através de formas, imagens, metáforas e símbolos.” A função estética do Teatro de Sombras transforma o ordinário em extraordinário, cria símbolos e projeta signos que transmitem a sensação que temos quando criamos um bebê: prazer, sensação agradável, sorriso, surpresa, encantamento, deslumbramento (imagens narcísicas), cria objetos de desejo (fetiches/coleções), cria e revela imagens impressionantes, que muitas vezes habitam nossos sonhos, imagens que vão muito além das palavras, imagens extraordinárias que povoam o imaginário humano.
 
O Teatro de Sombras possibilita a utilização do símbolo, da visualização, da revelação do sonho, representando e revelando magicamente o inconsciente coletivo. O inconsciente é a “caverna” de cada um, é um portal para um outro olhar, para um outro sentir e principalmente para um outro fazer. É uma tela onde projetamos os nossos desejos, os nossos símbolos e os nossos sonhos. 

O gênero do Teatro de Sombras possibilita a ampliação simbólica através de uma representação que utiliza a sombra como ferramenta para se chegar aos símbolos do inconsciente. Potencializa através da representação com a sombra que as nossas defesas, os nossos medos, o nosso inconsciente seja projetado e amplificado diante da luz, da consciência. Essa representação que se estabelece na utilização do Teatro de Sombras, transforma diante dos nossos sentidos aquilo que nos é usual, comum, habitual, em algo raro, fora do comum, excepcional, notável. De acordo com Andrade - 1995, p.9 - “O mundo da arte pode ser usado para ajudar a exteriorizar e dar uma outra moldura a seus afetos e recordações do passado.” 

Foi dessa percepção da potencialidade terapêutica da Vivência no Teatro de Sombras, que surgiu a idéia da Sombraterapia como um recurso psicoterapêutico, possibilitando a modificação daquilo que temos de mais comum e óbvio em nós, em algo especial e surpreendente, que nos auxilie na criação de novas imagens, sensações, representações e relações com nós mesmos, com o outro e com o mundo a nossa volta.

“Provavelmente em qualquer nível de participação de um espetáculo artístico um individuo pode se beneficiar terapeuticamente do mesmo. Mas este não é o objetivo primeiro de um espetáculo, de uma obra, ou de uma atividade artística. A arte é necessária para o homem conhecer e transformar o mundo, situar-se, tanto quanto envolvê-lo em seu inerente fator de magia. (ANDRADE, Liomar,1995,p.2)
Compartilhar no Facebook
< Voltar
© Clube da Sombra (51) 3446 9134 / (51) 9978 5657 / clube@clubedasombra.com.br