Repertório
Projetos
Clube da Sombra
Cia Teatro Lumbra
Caixa Preta
Este artigo se refere ao
sexto capitulo da monografia realizada pela psicóloga Fabiana Bigarella, integrante da Cia Teatro
Lumbra e uma das coordenadoras da produtora Clube da Sombra Ltda.

A pesquisa e a monografia foram produzidas
durante seu curso de conclusão como especialista em arteterapia no Centro de Estudos em Arteterapia,
psicologia e educação - CENTRARTE - Porto Alegre/Rio Grande do Sul, sob a orientação da Ms Magda
Martins Mariante no ano de 2009.

O trabalho Sombraterapia - “Plantando sombras, Colhendo luzes”:
Vivência com teatro de sombras - Investigação teórica, prática, intensiva e reflexiva sobre
sensibilização dos sentidos" é uma pesquisa ampla e será publicada em capítulos.


Abaixo o tópico descrito nessa publicação:

JUSTIFICATIVA


3. JUSTIFICATIVA

Pensar e falar sobre sombra foi um desejo que
surgiu sorrateiramente, que foi se revelando aos poucos. No início uma sensação confusa, uma mistura
de curiosidade, medo do desconhecido, do entendimento dessa “palavra”, desse “conceito”, desse
“ser”.

A sombra
iluminou a minha vida um pouco antes de conhecer a arteterapia. Surgiu natural e lentamente no meu
dia-a-dia, num primeiro momento como uma estranha e fascinante arte, uma linguagem que encanta a
quem assiste e a quem a realiza.

Meus primeiros contatos com a sombra me despertaram sentimentos e
sensações ambíguas: encantamento, estranhamento, deslumbramento, não entendimento.

Passei a fazer parte de uma
Companhia de Teatro de Animação, não pelo caminho mais obvio, ser atriz, diretora, produtora,
sombrista, mas pelo caminho do coração. No começo dessa relação com a arte do teatro minha direção
estava obscura, estava iniciando um mergulho em mundo onde não tinha a menor noção do que me
esperava, a escuridão era completa. Não sabia muito bem porque estava ali, o que fazer, mas sentia
que tinha que seguir, que alguma luz se acenderia em meu caminho e que conseguiria perceber o
sentido de estar inserida em um mundo que até aquele momento não fazia parte da minha
vida.

Iniciei
minhas atividades na companhia de teatro pela área de gestão de pessoas, realizava reuniões com o
grupo para auxiliar a entender algumas situações que ocorriam no dia a dia e que refletiam
diretamente no trabalho, na realização e criação dos espetáculos e atividades. Com o passar do tempo
fui assumindo funções administrativas e realizando atividades de apoio durante os
espetáculos.

Foram esses espetáculos que proporcionaram meu primeiro contato com o meu próprio
deslumbramento e com o deslumbramento dos espectadores diante da magia da linguagem do teatro de
sombras. Em cada sessão realizada ficava atenta aos comentários, movimentos e reações das pessoas
antes, durante e no final de cada apresentação. Ali comecei a perceber que essa arte, essa linguagem
do teatro despertava nas pessoas sentimentos e sensações das mais variadas.

Foi em função do retorno do
público no final de cada espetáculo, através das sensações, dos comentários é que percebemos a
existência de uma demanda de pessoas interessadas em saber como se realizava uma arte tão antiga e
tão pouco divulgada no Brasil, como o teatro de sombras. Dessa compreensão surgiu a Vivências no
Teatro de Sombras, em um primeiro momento, ministrada somente pelos sombristas da Cia, mas a cada
edição realizada ficava mais clara a necessidade da criação de dinâmicas que permitissem aos
participantes falar mais sobre as suas sensações durante a Vivência.

Fui então convidada pelo diretor da Cia Teatro
Lumbra a participar das Vivências no Teatro de Sombras. O seu convite veio depois de realizar
algumas das edições da Vivência e perceber que seria importante a presença e condução de alguém, que
em alguns momentos da atividade, pudesse sensibilizar os participantes para esse primeiro encontro
com uma linguagem que vai muito além do conhecimento técnico de um recurso do teatro, mas que
potencializa um contato direto com um mundo artístico e pessoal, que a maioria das pessoas ainda não
tinha experiênciado.

Desde a primeira Vivência que participei, percebi que aquela experiência mexia muito com
as pessoas, que encantava, perturbava, desacomodava, paralisava, emocionava e ao mesmo tempo me
provocava a conhecer e entender melhor aquele “mundo de luzes e sombras” que também era muito novo,
revelador e inquietante para mim. 

Novos questionamentos surgiam a cada Vivência, a cada novo grupo de
participantes aumentam as revelações e inquietações que aquela experiência me causava, buscava
algumas respostas e principalmente referências que embasassem a minha inquietação e encantamento
diante daquela possibilidade de sensibilizar e despertar nas pessoas o seu “eu” mais profundo e até
então desconhecido.

Conversava muito com meu colega que ministrava comigo a Vivência, pensávamos, discutíamos
e buscávamos entender o que eram aqueles sentimentos e sensações que a cada novo encontro causavam,
tanto nos participantes como em nós mesmos, fascínio, estranhamento, encantamento. É nesse momento
que a arteterapia surge, através de um email de divulgação enviado para mim pelo meu colega. Surge a
possibilidade de luz em mundo onde a escuridão é o elemento fundamental.

Desse encontro entre a arte
do teatro de sombras, a psicologia, a arteterapia surge a Sombraterapia: busca constante em
encontrar iluminação onde antes só havia escuridão. 


Era noite, em algum lugar desconhecido, e eu avançava com muita
dificuldade contra uma forte tempestade.
Havia um denso
nevoeiro.
Eu segurava e protegia com as mãos uma pequena luz
que ameaçava extinguir-se a qualquer momento.
Eu sentia que
precisava mantê-la acesa, pois tudo dependia disso.
De súbito
tive a sensação de que estava sendo seguido.
Olhei para trás e
percebi uma gigantesca forma escura seguindo meus passos.
Mas
no mesmo instante tive consciência, apesar de meu terror,
de
que eu precisava atravessar a noite e o vento com a minha pequena luz, sem levar em conta perigo
algum.
Ao acordar,
percebi de imediato que havia sonhado com a minha própria sombra, projetada no nevoeiro
pela pequena luz que eu carregava.
Entendi que essa pequena
luz era a minha consciência, a única luz que possuo.
Embora
infinitamente pequena e frágil em comparação com os poderes das trevas,
ela ainda é uma luz,
a minha única luz.

Jung
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