Repertório
Projetos
Clube da Sombra
Cia Teatro Lumbra
Notícias
06.12.2018 - Cores ao Vento - Navegando pela arte de Silvio Rebello

Veja o filme aqui.


Uma obra de arte se basta. Fala por meio da sua linguagem, técnica, tempo, forma e se comunica por um período indeterminado. São intermináveis as leituras e sensações propostas por uma imagem, um som ou uma composição artística. De onde vem essa inspiração? Será que o criador guarda dentro de si, no seu íntimo, tantas referências e inquietações como as que busca provocar naqueles que se postam diante da obra?

A arte é misteriosa e torna-se vertiginosa na medida que mistura-se nos segredos da vida de quem arrisca-se a criar. Os descontroles dessa combinação entre o real e a artístico chegam parecer devaneios e alucinações e emprestam à obra características místicas, mágicas, sobrenaturais que nos arrebata e que, muitas vezes, sem sabermos, nos provoca, mesmo sem entendermos. Algo além da crítica, que fala de si exatamente por ser como é.

A trajetória de vida de quem cria é incerta. É evolutiva e, na medida que se aprofunda, se dilui na própria obra, revelando e ocultando sutilezas desse movimento. São sujeitos estranhos, ou acabam se tornam assim, quando se lançam na aventura de inventar o que não existe. Inventam-se de maneira excêntrica, distanciando-se do centro, do certo, do óbvio e deles mesmos. Inventivos, enigmáticos e feitos daquilo que vivem, pensam e fazem conforme a vida permite-lhes. Buscam incessantemente materializar as suas fantasias e, no decorrer dessa busca, deixam um rastro de coisas e sentimentos espalhados. São pistas para quem quiser seguir e testemunhar de quê é feita a criatura e o criador. Indícios formados pelo que está no centro, no entorno, nas memórias, paisagens vistas, no jeito particular de sentir o mundo, na maneira de vestir, nas ferramentas, bilhetes e esquecimentos. No círculo de amigos, nas receitas secretas, curiosidades, sons e histórias. Muitas histórias.

Esse documentário sobre o artista Silvio Rebello são recortes e colagens de breves relatos de quem o conheceu. Quem o viu passar. Quem parou um instante para ver uma obra sua. Quem saboreou um instante daquele momento juntos. É um registro de sua passagem e de algumas pegadas coloridas que deixou nas calçadas e areias por onde passou. Um apanhado de pitorescas crônicas despretensiosas.

As câmeras que captaram as imagens saíram com a mesma curiosidade que esse singelo filme pretende causar em quem o assiste, sem qualquer obrigação formal de apresentar o artista e as suas obras de maneira convencional. O registro foi uma urgência, para evitar que as pegadas do Silvio desapareçam no vento do esquecimento ou nas marés das ausências. É certo que toda a amplitude e importância de sua trajetória artística merece mais tempo, espaço e recursos, mas é nessa simplicidade que repousa as belas memórias dos seus amigos mais queridos. Exatamente como le os cultivava.

Na prática, as lentes, as luzes e os enquadramentos buscaram registrar a diversidade criativa do artista no uso dos materiais, das ferramentas e as manifestações de desconhecidos ou das lembranças de seus amigos. A memória se aviva conforme as história vai sendo contada e o pretexto necessário e motivador para dar a arrancada nessa narrativa foi buscar nas obras as luzes e as sombras do artista. Surgiu um tesouro simbólico do patrimônio imaterial nas texturas do couro, nos entalhes brutos, nas palavras carinhosas, no brilho das formas esculturais, nas piadas quase esquecidas, nas tristezas da ausência. Riqueza no processo, de ter que lidar com as incertezas da memória, com as fotografias guardadas, as aflições do passado, com as cores selvagens, os amores proibidos, desconhecidos traços tortos, assinaturas apagadas e sonhos compartilhados de muita gente que nunca imaginavam protagonizar um filme.

É um curta-metragem que investiga poeticamente as múltiplas vivências e manifestações artísticas que Silvio Rebello deixou pela região onde viveu. O lugar é Tapes, uma cidade gaúcha de 160 anos com aproximadamente 17 mil habitantes, de economia rural, planícies costeiras e algumas elevações aqui e ali. Foi local pujante de muito gado de corte, fazendas extensas, portos movimentados, charqueadas relevantes e escravos. Também teve seus tempos de ouro com o turismo natural e esportivo nas praias da Lagoa dos Patos, que emoldura sua costa e atrai banhistas por causa das suas águas mansas e mornas. Está a pouco mais de 100 km de Porto Alegre e já foi muito badalada na sua história, servindo como parada para viajantes, reduto do carnaval de rua, abrigo para velejadores, excursões de turistas, ponto de encontro de músicos e intelectuais. Aí viveu Silvio. Um sujeito franzino que gostava de pescar, que trabalhou em diferentes empregos, que teve filhos e que por muitos anos radicou-se na pitoresca vila de pescadores de Tapes para criar e dividir as suas memórias, desenvolvendo o seu talento e produzindo a maior parte do seu trabalho artístico.

Os dados do documentário foram garimpados nos pequenos reconhecimentos e na importância local sobre a arte e o artista, um tanto distante do baú da família e dos dramas profundos da vida. Os encontros se deram pela curiosidade em indagar quem foi esse sujeito tímido, falar um pouco sobre como enveredou-se pela aventura artística e o que ele fez no interior do seu pequeno ateliê de pedra. Nos relatos de sua passagem pela Bahia, imagina-se que o jovem Silvio apimentou a sua vida pacata e destilou muito de sua maestria nas variadas ferramentas e materiais que utilizava. Lá ele bebeu na fonte dos orixás, do candomblé, da capoeira, do recôncavo de todos os santos e da novas amizades. Viajou em saveiros, delirou nas cores e nas amizades para depois, generosamente, retornar para a beira da água doce, de onde mesclou tudo em inspiração, devolvendo as mais belas criaturas e criações para os tapenses. Dessa aventura partiu toda a potência para projetar as suas verdades na maneira de criar e manifestar suas ideias em traços fortes, cores vivas e formas dramáticas. Produziu intensamente as suas pinturas em painéis de couro que ganharam o mundo em remessas para lugares distantes ou nas mãos de turistas e colecionadores que adquiriam suas obras em galerias e aeroportos de todo o mundo. Nem se sabe ao certo o quanto tem de Silvio Rebello espalhado por aí, pois enviava lotes de peças para muitos cantos e clientes no Brasil e no exterior. Sujeito de muitas facetas, ornava suas obras com delicados fios tramados, mas também fazia esculturas de ferro com pesadas sucatas recolhidas dos engenhos de arroz da região. Seus guerreiros e máscaras estavam armados com vergalhões, fusos de trilhadeiras, dentes de ceifadeiras, correntes e discos de arados. Era amigo da madeira e das pranchas de cinamomo rasgadas com formão e serras fez seus primeiros entalhes de peixes brilhantes com escamas de conchas, guelras de ladrilhos, nadadeiras de pinos de alumínio, olhos de vidro e uma palheta infinita de cores. Suas impressionantes telas em tinta acrílica são paisagens de horizontes reais, com panorâmicas que revelam bancos de areias perigosos, velas estufadas em águas distantes, animais fantásticos, céus apocalípticos e talvez um sonho secreto de viajar para algum mundo mágico, de volta, nas águas da amada Bahia. Na fotografia está presente a força e a pureza das cores, da matéria, dos detritos refugados pelas marés, do vínculo com a lagoa, da navegação e seus pescadores que se avizinhavam do seu estúdio de pedra ferro em formato de torre. As imagens buscam esses lugares em visitas que registram fragmentos dessa arte espalhada pelas casas de amigos e notórios entusiastas da arte do Rebello na região de Tapes. Pinturas dadas de presente que ornam paredes e lares. Generosidade marcante do artista com os seus queridos quando ofertava como um agrado pelo casamento ou um regalo despretensioso para aqueles mais chegados à sua simplicidade e jeito tímido. Silvio fez de tudo um pouco para muita gente. Para ele, certa vez, fez um barco. Chamou de "Coisa Feita" e navegou pra lá e pra cá. Acampava do outro lado do saco de Tapes, num cantinho chamado Birú, onde pescou miudezas e bichos grandes, cozinhou no sol a pino e a meia-noite. Em terra, andava a pé, de ônibus e bicicleta. Comprava retalhos de couro e os remendava habilmente para pintar seu painéis. Colhia conchas para encravar em tábuas e porongos. Soldava tralhas para revelar mistérios em forma de combatentes de outros mundos. Bebeu de poucas vinhas e apreciava um bom vinho de garrafão. Projetava com refletores estranhos os mais loucos sonhos nos palcos. Trançava nos fios da sua vida lagoeira as amizades que se mostram nos depoimentos desse ingênuo documentário.

É uma montagem de depoimentos de admiradores, amigos, desconhecidos e entusiastas dessa trajetória que começa em Tapes, percorre a Bahia, em uma aventura quase espiritual, e retorna para a beira da Lagoa dos Patos, na mesma singela vila de pescadores onde viveu e morreu, em dezembro de 2017. Silvio foi diagnosticado com Parkinson e trabalhou cotidianamente enquanto as forças permitiam, enfrentando as limitações físicas e a degeneração gradual do corpo. Quando lhe faltou a precisão motora, criou com as tintas e nos últimos anos de trabalho, buscou na fotografia todas as cores que a pintura já lhe exigia demasiada energia. Mesmo abatido, pintou sempre e até o final da vida, com a ajuda dos filhos. Deitado na cama, a sua mão riscava no ar pinturas inéditas, lindas e invisíveis, com todas as suas encantadoras cores ao vento. Um dia a falta de saúde o impediu de escrever o nome com a elegância de sempre, com letras ornadas, longilíneas e ricamente compostas em um design aprimorado por anos de mistura de pigmentos, traços de formas extravagantes e invenções de coisas que não existem. Suas últimas pinturas em telas e painéis foram expostas recentemente e não estão presentes nesse documentário, mas em tempo, farão parte dessa história de dedicada vida à criação.

Para tentar diminuir a agitação entre o fundo das paisagens da laguna de Tapes e o indivíduo objeto desse documentário é preciso atentar aos mínimos movimentos, aos pequenos poemas e nas cores desbotadas que orbitam no entorno da retórica rebellística. Para cobrir essas facetas foram necessários muitos pontos de vista, olhares, convocadas muitas cabeças e colaboradores que tomaram para si o desafio de convocar depoentes ou pegar uma câmera e realizar um registro histórico no ano em que se celebra a vida e a obra do artista, nas escolas e nas ruas da cidade de Tapes. A Secretaria de Educação e Cultura do município é o principal investidor nesse processo em que a pedagogia junto com os alunos da rede pública se manifesta não só nas salas de aula, mas também com oficinas de criação e produção artística fora do ambiente escolar, na cidade. Os alunos aprendizes dessas oficinas entram em contato com diferentes pessoas, linguagens, perspectivas, referências. Dentre elas, a arte do audiovisual, que possibilitou captar parte das imagens para a realização desse documentário. O processo permitiu que jovens sem experiência tivessem acesso à diferentes tecnologias para desenvolver a sensibilidade e a autonomia para operar câmeras, organizar depoimentos, captar imagens, programar computadores e editar imagens que gerou um making of sobre como se faz um documentário. Essa experiência de usar a arte como referência e alternativa no processo de crescimento pessoal e técnico, também é parte da alma desse curta metragem, pois foi realizado em regime de co produção com os aprendizes da oficina, em conjunto com profissionais experientes, de maneira que a criação, o roteiro, a produção, a direção, a arte, a captação de imagens, a edição e a finalização, puderam ser desenvolvidas em um tempo curto, com diferentes investigações, olhares e experimentações de luz, câmera, efeitos, tornando o resultado rico em linguagem, troca e aprendizado.

Ao apreciarmos esse documentário fragmentado, incompleto, ondulante, imaginamos que estamos respirando profundamente os ares da superfície e tomando fôlego para mergulhar em águas escuras. No ar, as cores ao vento voam para longe. Quem está em terra firme pode apreciar esse registro da história de um cidadão de Tapes, de sua relação com a lagoa e de tanta gente com quem conviveu. A Prefeitura da cidade, através de seus agentes de educação, salvaguarda não só os seus valores locais e históricos, mas fomenta a criatividade nas novas gerações, no convívio com diferentes pessoas, na aquisição de conhecimentos e no entendimento de referências culturais diferentes, como um farol, a orientar os navegantes.

Vejo o Silvio aproveitando o nordesteão pra cruzar o saco de manhãzinha e encostar o "Coisa Feita" lá nas águas mansas do Birú. Recolhe vela, joga âncora e não perde tempo, lançando a sua rede feiticeira perto dos juncos. Logo já tem peixe para um almoço ou jantar, regado a vinho, o predileto, o de garrafão.

Somos nós que nos jogamos e caímos como peixes nessa rede do artista. Pegos pela curiosidade. Pela simplicidade. Pelo embalo da maré. Somos nós que formamos a memória dessa trama de pessoas que buscam as águas tranquilas, a natureza, a beleza da paisagem, as amizades e as relações de afeto que a vida pode oferecer.

A coprodução dos alunos aprendizes das oficinas de audiovisual da Prefeitura de Tapes com o Clube da Sombra Criações e Produções Artísticas, a Cooperativa Catarse Coletivo de Comunicação e a Lagoa TV de Tapes, marca uma ação necessária e duradoura de interesses mútuos, convívio, prática, criação, produção e valorização das capacidades dos indivíduos desses diferentes coletivos.

Uma celebração da existência, dos afetos e da memória viva, colorida, que voa livre ao sabor do vento...


Alexandre Fávero

Dois Irmãos, novembro de 2018.

Compartilhar no Facebook
< Voltar
© Clube da Sombra (51) 3446 9134 / (51) 9978 5657 / clube@clubedasombra.com.br