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Direção
Depois do sucesso do premiado espetáculo de sombras SACY PERERÊ - A Lenda da Meia-Noite, a Cia Teatro Lumbra dá continuidade à sua trajetória de pesquisas e experimentações com o teatro de animação e as lendas brasileiras. O ponto de partida deste projeto cênico, denominado "A SALAMANCA DO JARAU", foi uma profunda pesquisa de campo sobre o universo simoniano. Os integrantes da Cia percorreram quase 2000 Km de estradas do interior do Estado, com início no município de Pelotas, onde nasceu e se criou o autor, e depois nos municípios de Uruguaiana e Quaraí, onde é ambientado o conto.

Na realização desta pesquisa, tivemos o contato direto com o Dr. Carlos Francisco Sica Diniz, pesquisador pelotense e biógrafo da mais recente obra sobre a vida de JSLN. Foi possível ter acesso aos valiosos documentos e edições raras do autor, graças ao dedicado bibliófilo e pesquisador pelotense Mogar Xavier. Também conhecemos os segredos do gaúcho da campanha e das lendas sobre as salamancas com o poeta e estancieiro Colmar Duarte. Somente com a colaboração destes respeitados pesquisadores, é que foi possível a criação de um acervo de imagens, em foto e vídeo digital, para posterior consulta de referências estéticas na fase de criação de cenas, personagens, cenografia e identidade visual do espetáculo, bem como a exposição deste rico material, durante as temporadas.

"A SALAMANCA DO JARAU" é um espetáculo, de 48 minutos de duração, para jovens e adultos, a partir dos 14 anos de idade, que utiliza surpreendentes recursos audiovisuais, unindo com criatividade, a tecnologia experimental, a força da trilha sonora original e os deslumbrantes efeitos visuais do "cinema de sombras".

Nesta montagem, inspirada livremente no conto homônimo de JOÃO SIMÕES LOPES NETO, o cenógrafo e diretor teatral Alexandre Fávero utiliza sua experiência criativa na ambientação cênica e no domínio da projeção, das luzes e sombras, para guiar um personagem: o gaúcho Blau Nunes.

Na total escuridão, o público acompanhará o intrincado destino deste vaqueano, que enfrenta os mistérios da gruta encantada do Cerro do Jarau, em nome do amor por uma princesa moura.

As paisagens pampianas, projetadas pelo bonequeiro e sombrista Flávio Silveira, surgem, hora em pequenas, hora em grandes telas, que lembram a arquitetura das igrejas missioneiras e das grutas escuras, dos cerros de formação vulcânica. A versatilidade das telas, com diferentes formatos e tamanhos, servem como pano de fundo para as ações dos personagens. Estas telas são sustentadas por leves estruturas de varas de bambu, cabos, cruzes e mastros, próprias para serem manobradas pelo artista plástico, cenotécnico e contra-regra Roger Lisboa, durante as rápidas mudanças de cena que se desenvolvem. As maquinarias de bambu, especialmente projetadas para as diferentes necessidades de trocas e costuras de cenas e também o ocultamento dos personagens, vão transformar o tecido das telas em diferentes paisagens, até formar a gruta, onde Blau Nunes vai entrar em busca da formosa princesa moura encantada: a Teiniaguá.

Nesta atmosfera, de mistério e penumbra, a manipulação da luz no espaço é que revela a figura dos personagens deste conto simoniano. As silhuetas projetam enormes sombras no pano de fundo e repentinamente apresentam-se como delicadas figuras, planas e coloridas, que se movimentam num primeiro plano ainda não revelado. São essas surpresas, no decorrer da encenação, próprias da metalinguagem do teatro de animação, que imprimem ritmo nas diferentes passagens de tempo da narrativa. Cenas fechadas, executadas com a projeção de silhuetas de couro vazado, de diversos tamanhos, ricamente lavradas e pintadas, em pequenas áreas de projeção, remetem o espectador ao uma viagem no tempo antigo dos mouros espanhóis. As cenas abertas, com figuras e sombras de grandes dimensões, mostram as amarguras de Blau Nunes e sua trajetória no Cerro do Jarau.

Os três atores-manipuladores e os diferentes personagens da história atuam como se fossem fantasmas. Deslizando e se misturando ao ambiente cênico, revelando novos mistérios a cada momento. Aparecem e desaparecem aos olhos do público, como almas penadas e assombrações, manipulam luzes, silhuetas, cenários e executam uma luta de facões, no escuro, revelada apenas pelo efeito da luz negra e a faísca das lâminas de ferro.

Para a perfeita coordenação destas cenas a atriz e coreógrafa Luciane Panisson empresta seu talento na criação de movimentos e coordena uma preparação corporal com o elenco, fundamentada nas dinâmicas do movimento e o espaço escuro do teatro de sombras.

A relação de jogo de presença/ausência dos atores em cena conta com a colaboração da atriz e figurinista Lígia Riggo, que incorpora nos atores uma caracterização inspirada nas pilchas gaúchas e na neutralidade de cores. A bombacha, a camisa larga e o pala possibilitam conforto e uma movimentação mais livre durante as ações.

É importante ressaltar também o despojamento na escolha dos materiais para a construção do cenário e das silhuetas. Utilizando o bambu e o couro de lonca, justifica-se a referência da "idade do couro" própria das charqueadas gaúchas há cem anos atrás e também por imprimir uma forte associação estética com o teatro de sombras tradicional do oriente. Esta escolha de materiais constitui o elo de ligação entre as antigas culturas formadoras do povo gaúcho: o índio, com seu artesanato em fibras naturais; o árabe, com a tradição milenar da arte das sombras de couro; o negro, escravo das estâncias e trançador de tiras de couro para os apetrechos da lida campeira e finalmente o europeu, senhor da vida e da morte na colonização do pampa.

É esse aparato cenotécnico que permite a construção e desconstrução dos signos teatrais e da leitura audiovisual, durante todo o espetáculo, dando uma impressão surrealista dos signos, próprio da narrativa do conto, proporcionando ao público, uma contemplação profunda, intimista e filosófica do universo encantado das Salamancas.

A adaptação do conto para o roteiro de sombras e a criação das cenas é feita pelo idealizador Alexandre Fávero, em parceria com o premiado diretor teatral Camilo de Lélis, que também presta uma valiosa consultoria cênica durante a produção, experimentações cênicas e ensaios.

No teatro de sombras, de forma geral, a preferência é da imagem e da trilha sonora, sendo que, o texto falado tem a função de complementar a leitura e o entendimento do espectador. Tendo em vista esta importante característica da linguagem, a narração e os diálogos são extraídos do conto, na sua forma original, e "colados" sobre a narrativa audiovisual.

Para complementar a força das imagens, o experiente músico gaúcho Bebeto Alves assina a trilha sonora originalmente composta, inspirada nos diferentes ritmos populares sul riograndenses. Os arranjos sugerem referências que vão da origem dos ritmos indígenas e árabes até milongas, chamamés, toadas e temas missioneiros. As locuções dos personagens são gravadas pelas vozes dos cantores gaúchos Jorge Herrmann, Marisa Rotenberg e Bebeto Alves. A trilha sonora, os efeitos e as vozes dos personagens são editados e finalizados em um CD.

A identidade visual e o material gráfico do espetáculo são criados e finalizados pelos integrantes da Cia Teatro Lumbra. Utilizam as cores da bandeira do Rio Grande do Sul e os símbolos das diferentes culturas contidas na obra literária. O conteúdo gráfico do cartaz, que também é o programa, representa, na parte da frente, a miscigenação do povo gaúcho, tendo ao centro, a figura feminina da teiniaguá. No outro lado, as imagens apresentam o processo de pesquisa e produção da montagem cênica, dando uma idéia da complexidade artística deste projeto.

Alexandre Fávero
Porto Alegre 15/11/2003

Composição da trilha sonora original
A trilha vai oferecer um tecido, uma textura que ambiente o universo de Simões Lopes Neto em seu contexto geográfico-cultural, ou seja, partindo de um universo musical composto de milongas, rancheiras, toadas etc. Toda a variedade de ritmos que identificam a música como de origem do extremo sudoeste do país - o pampa, região de tripla fronteira, o rio, o silêncio, a sabedoria do seu povo, a cor da sua tez, o sol poente do Rio Uruguai, e a grande imensidão de terra e campo.

Tudo isso associado ao sabor da lenda da chegada dos mouros em terras gaúchas, do diabo anhangá-pitã e da princesa transformada pelo tal tinhoso em uma lagarta, com uma pedra vermelha, luminosa e transparente ao invés da cabeça.

Por si só, a história sugere na parte musical, outras linhas mais amparadas por efeitos de som, computadores e teclados, para tentar o clima de magia e encantamento que o texto sugere.

É claro que o uso de violões e percussão é determinante na trilha seguindo a sugestão do roteiro, da direção e do caráter do espetáculo.

O que temos como desafio é, mesmo que se utilizando ritmos conhecidos, ou ainda, de sons de teclados e computadores, não cairmos no lugar comum, no deja vu, já que a lenda é muito popular, e por ser, é evidente que já teve um numero grande de montagens e de concepções.

Bebeto Alves
Porto Alegre 10/03/2004

 

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