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Do pampa agreste ao surgimento do autêntico gaúcho
No início da luta pela povoação do Brasil, o extremo sul era uma terra verde e selvagem. Era nesse pampa agreste que viviam isolados, há milhares de anos, muitos povos e tribos.

Foi em 1501 que começaram a aparecer as primeiras caravelas portuguesas na costa gaúcha. Em seguida, as espanholas. Por ser uma praia sem portos naturais, os navegadores só foram desembarcar mais tarde, quando descobriram uma grande barra situada mais ao Sul, batizada de Rio Grande de São Pedro, a qual permitiu a entrada de navios do Oceano Atlântico para a Laguna dos Patos. Em seguida, vindos da região Platina, chegaram os padres jesuítas, com a missão de domesticar os índios, os bichos e as plantas. Fundaram os Povos das Missões, dando início à catequização. Neste período, o branco e o índio construíram igrejas de pedra, criaram gado, cavalos e comercializaram erva-mate, num lugar onde não existia nada. A riqueza gerou a ganância de outros interessados pela fartura e potenciais econômicos existentes no Pampa, vieram então os tempos de guerra. As coxilhas, cobertas de gado, ficaram manchadas de sangue e o povo jesuíta ficou entre a cruz e a espada.

Inevitavelmente, os Povos das Missões foram expulsos do Rio Grande do Sul pelos Bandeirantes e todo o gado se esparramou, tornando-se tão selvagem como as disputas de território que se seguiram entre as coroas de Portugal e Espanha. Nesta época foi fundamental o trabalho do negro escravo traficado da África para o Brasil, que impulsionou a economia das charqueadas. O índio, que era considerado improdutivo e acostumado com a vida livre, enfraquecia e morria precocemente sob o açoite dos brancos.

Neste panorama, imposto pela força bruta, todas as raças se adaptaram e naturalmente se miscigenaram. Dessa união entre europeus e índios surgiram as primeiras influências do povo gaúcho.

Esses corajosos sobreviventes aprenderam a ser andarilhos que não se apegavam ao trabalho nem à propriedade, por isso eram chamados de vagabundos, ladrões e aventureiros pelos colonizadores. Acostumados com a vida errante, posteriormente criaram raízes, tornando-se colonos e agricultores. Foi então que o resto do Brasil começou a conhecer o gaúcho, um povo que vivia nas coxilhas sem fim e sem fronteiras definidas. Mas no decorrer do tempo esse gaúcho passou por um processo de têmpera, baseada na liberdade e no jeito marginal de levar a vida, até ser lentamente deformado e caricaturizado pelo mesmo colonizador branco.

No baixar da poeira, já no período chamado de idade do couro, onde se vislumbravam as estâncias, as cidades e as cercas, próprias dos charqueadores, rios de tinta começaram a correr sobre as folhas de papel nas escrivaninhas dos intelectuais da época. Muitos destes ilustres estancieiros do saber tentavam, enfaticamente, registrar a história do homem do Rio Grande do Sul. Na poesia, na música ou na literatura lia-se sobre o autêntico gaúcho. A grande propaganda dessa gente do sul se deu através da literatura, impregnada de termos e citações próprias do campeiro e cheias de elementos simbólicos. Durante o processo desse refinamento literário, surgiram múltiplas variantes, eruditas e populares, até se firmar numa autêntica essência poética.

João Simões Lopes Neto: um escritor de obras de rico efeito e ficção
Logo após a assinatura da abolição da escravatura, no início do declínio econômico das charqueadas, surgiu um escritor, vindo de família rica, de nome JOÃO SIMÕES LOPES NETO. Este pelotense, de vivências campeiras, escreveu a punho textos para teatro, jornais, ensaios e livros. Como homem de negócios, teve diversas atividades comerciais, sempre mal sucedidas. Acreditava-se que era um homem azarado nos negócios, mas tinha um talento incomparável nas artes. Foi o precursor dos atuais CTGs e de movimentos ecológicos como o Clube União Gaúcha, a Sociedade Protetora dos Animais, o Clube Ciclista e a Festa das Árvores, em Pelotas. Sempre foi tido como um intelectual de notável saber, sendo uma espécie de consultor popular e um dos fundadores da Academia de Letras do RS, onde ocupou a cadeira de número 3. Seus textos tinham uma linguagem clara e direta, sem nunca perder a poesia e o senso crítico, sempre afinado com a política atual. Nos seus contos se vê o estilo e o vocabulário cheio de riqueza e pesquisa. Os temas brutos eram transformados em obras de rico efeito e ficção, aparecendo o talento deste gaúcho que trabalhou, com tanta intensidade, num breve e humilde percurso.

Com autenticidade, próprio de um escritor de talento, JSLN trouxe a permanência do gaúcho. Não como inventor da poesia, mas como matéria de seu contexto e história. Nos seus contos regionais falou da condição do negro, em “O Negro Bonifácio” e “O Negrinho do Pastoreio”. Surgiu também de sua mão os “Contos Gauchescos” e “Lendas do Sul”, com verdades ainda não ditas nas várias páginas que escrevia diariamente. São “livrinhos” repletos de cores, imagens, conceitos e ritmos. No fundo de seus contos sempre há um sentido moral, um ensinamento ou uma boa intenção.

A Salamanca do Jarau: sua última e grande obra
”A Salamanca do Jarau” é a última produção de JSLN , escrita em 1913, aproveitando-se do folclore para fazer poesia. Uma obra que suscitou discussão em sua classificação: lenda ou conto? Posteriormente, estudiosos tentaram esclarecer afirmando: “se o pesquisador for um folclorista, será classificado como lenda, se for um investigador de problemas literários, será considerado um conto, sem que disso ocorra qualquer falsificação na determinação do gênero a que pertence a obra”. Talvez esta fusão lenda-conto seja o maior sinal da genialidade e originalidade da criação simoniana.

É na edição de “Lendas do Sul” (Livraria Universal, Pelotas) que se revela o grande segredo sob aparência de lenda, assombrações e mistérios. Na evolução artística de seus textos surgiu o protagonista, um dos personagens mais marcantes de seus contos: o herói Blau Nunes. É o gaúcho pobre, o tropeiro, o peão de estância, o índio humilde que traz consigo a identificação profunda com o espírito dos pagos, a tal ponto que o próprio autor, pelotense, culto e de família abastada, se apaga na sombra do vaqueano.

O desenvolvimento dessa versão é de extrema complexidade e nota-se que quase nada resta da matriz da lenda original, a qual conta às angústias de um sacristão da cidade de São Tomé que é seduzido, enfeitiçado e iniciado nas artes mágicas pelos encantos de uma princesa moura, vinda das histórias da Península Ibérica e transformada em Teiniaguá pela mão do próprio diabo indígena, Anhangá-Pitã. Essas superstições platinas, espanholas e portuguesas fazem parte do discurso de Blau Nunes, que reproduz essa história, que foi contada, por sua avó charrua, e que tem origem na cidade espanhola de Salamanca, local de furnas encantadas.

O resgate de JSLN dá um fôlego novo a essa crendice popular, que inevitavelmente teria sido perdida. É nesse aproveitamento da tradição oral riograndense, ameaçada de extinção, somada ao imaginário da fronteira e pesquisas eruditas que resultou a estrutura e o estilo simoniano. Em “A Salamanca do Jarau” o autor relata com imensa criatividade a saga do gaúcho Blau Nunes, que percorre e enfrenta sete provas na salamanca mítica, situada pelo autor, na Coxilha Geral de Santana, sobre a fronteira com o Uruguai, no Cerro do Jarau, ao norte do município de Quaraí/RS. Curiosamente era proprietário desse local o controverso general farroupilha Bento Manuel Ribeiro que, segundo a crença popular, teria entrado no Cerro do Jarau e feito um pacto com a Teiniaguá, saindo de lá com “o corpo fechado”.

“A Salamanca do Jarau”: a montagem em teatro de sombras
Muito ainda há para ser entendido e dito sobre essa obra-prima da literatura gauchesca, onde é possível vislumbrar a essência de ser gaúcho. Mas o que é ser gaúcho? Creio ser esse o segredo que JSLN apresenta através de Blau Nunes, que entra no interior da salamanca, a gruta mitológica, que guarda desafios e perigos e descobre o valor de si mesmo. Blau apostou na sorte para mudar sua condição de gaúcho pobre, mas não obteve sucesso. Seu destino maior foi o de libertar os dois condenados, o Sacristão e a Teiniaguá, do encantamento de 200 anos e da opressão cultural do colonizador. Finalmente libertos, formaram um “novo casal”, possibilitando a existência de “uma nova gente”, ou seja, o povo gaúcho.

Partindo desta mesma linha de pensamento a “nova gente do teatro gaúcho” procura buscar uma linguagem, à altura da poesia simoniana, baseada na principal alegoria, norteadora do teatro de sombras ocidental: o mito da caverna de Platão.

No caminho da pesquisa e da experimentação do gênero milenar do teatro de sombras, somado à dinâmica cinematográfica moderna, é que se fundamentam os princípios dessa montagem, possibilitando uma experiência singular, quase metafísica, com esta arte esquecida no tempo e que tanto inspira o espírito imaginário do público. Uma “nova linguagem”, autenticamente gaúcha e ao estilo simoniano, capaz de contar ao povo algo sobre sua própria origem mitológica.

É desta forma que o gaúcho pode ser comparado com a própria metalinguagem da arte teatral. Ambos não são puros, mas sim, o resultado da mistura do sagrado e do profano, do bem e do mal, da luz e da sombra, do concreto e do etéreo. Essa ambigüidade, em conflito permanente, é que nos emociona na arte e na vida. Essa é a arte de ser gaúcho. O autêntico gaúcho é esse herdeiro da mistura de raças e culturas, fusão de tradições, com um estilo inconfundível.

Sem sombra de dúvida, “A Salamanca do Jarau” é todo esse manancial de segredos e símbolos para a contemplação filosófica do público porto-alegrense e mais do que isso, riograndense. No decorrer do exercício experimental deste espetáculo, artistas e público exploram, junto com o personagem Blau Nunes, um caminho artístico para uma identidade genuinamente gaúcha. Blau é índio, mas também é português cristão e mouro herege. Comparativamente, é como o espetáculo teatral, que é ação, mas também é imagem, som, luz, sombra e sonho. No fundo, essa mistura, revela um grande ensinamento de vida. Ou quem sabe, bem mais do que isso, um pensamento profundo do próprio autor JOÃO SIMÕES LOPES NETO e de todo o artista gaúcho: ser verdadeiramente autêntico. Como é e sempre será.

Alexandre Fávero
06/01/2004

 

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