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Unidade Nuclear do MitoUniverso SimbólicoUniverso SimonianoBibliografiaObra na ÍntegraFicha técnicaContato
 
Unidade nuclear do mito Segundo esquema e formulação teórica de Joseph Campbell, estudos de Flávio Loureiro Chaves e interferências de Alexandre Fávero.

A Separação
1) o chamado a aventura
A fuga do boi-barroso que provoca o ato de campear é a mola propulsora do roteiro. Aceitação do desafio, indagação sobre o espaço circundante. Reconhecimento e conquista. O destino ultrapassou o herói e o seu centro de gravidade espiritual transferiu-se para uma zona desconhecida (país desconhecido, floresta, ilha secreta, montanha inacessível ou gruta)

2) a recusa ao chamado ou a ajuda sobrenatural
Trata-se de duas variantes: se recusar, sua vida fica privada de sentido e só lhe resta a desintegração final; aceitando, a primeira figura que encontrar em seu caminho é a do protetor, quase sempre um velho ou uma velha que indica caminhos ou amuletos contra as forças que deverá enfrentar.
O velho sacristão indica a entrada da caverna, em retribuição à saudação cristã, e embora não lhe ofereça um amuleto, dá-lhe o conselho indispensável quanto à atitude que deve assumir nas etapas seguintes: “alma forte e coração sereno!...”

3) a passagem do umbral
É o ingresso na “zona desconhecida” e o vínculo entre a observação e a imaginação. O mundo humano e o sobrenatural. Metáfora do silêncio e da solidão no vôo parado das corujas como a passagem do umbral. Momento da separação que reduzem Blau a si mesmo.

4) O ventre da baleia
A incorporação do herói ao reino desconhecido traduz alegoricamente o ato que “recentra” a vida e, portanto, a renova. Cabe a Blau conhecer e nomear este reino, território privilegiado do herói.

A Iniciação
1) O caminho das provas
Trata-se da “purificação do eu”, um processo de dissolução, sublimação e transmutação: perigos, monstros, desafios, provas, ajudas secretas e personagens reveladores sucedem-se como formas que refletem não só o quadro completo de nossa situação presente, mas indicam também o caminho da salvação.

-as espadas ocultas na sombra
-a arremetida de jaguares e pumas furiosos
-a dança dos esqueletos
-o jogo das línguas de fogo e das águas ferventes
-a ameaça da boicininga amaldiçoada (única que não está presente na literatura épica, é um aproveitamento folclórico)
-o convite das donzelas cativas
-o cerco dos anões

Blau supera todos os desafios em direção ao centro da caverna. Não existe qualquer combate físico, mas sim a conduta firme conforme o conselho indicado pelo guardião do cerro: “alma forte e coração sereno!...”

2) O encontro com a deusa
Superadas todas as provas, o encontro é apresentado como “união mística” entre o herói triunfante e a deusa, dominadora do mundo. Aqui há uma multiplicidade de significados: ela é, simultaneamente, mãe, irmã, amante, esposa, encarnando a perfeição prometida. A figura mitológica da Mãe Universal infunde ao cosmos as propriedades femininas da alimentação e proteção; mas é, ao mesmo tempo, matriz e tumba, união do bem e do mal; representa, na expressão alegórica do mito, a totalidade do que pode ser conhecido e, por isso, o “herói” é justamente aquele que alcança este conhecimento. A união mística com a deusa significa que o herói tornou-se senhor absoluto da vida; as provas cumpridas aprimoraram sua consciência para esta última experiência – a posse da mãe destruidora, também sua esposa inelutável. A partir daqui ele e o pai não são senão um só: ele passou a ocupar o lugar do pai.
Aqui ocorre uma profunda alteração no sentido “heróico” do itinerário e da atitude de Blau, alterando o modelo clássico encontrado na mitologia.

A teiniguá oferece sete escolhas em paga das sete provas vencidas (sorte, amor, sabedoria, força, mando, riqueza e arte), recebendo sete negativas. Diante disso ocorre a sua expulsão do mundo sobrenatural, do episódico para o psicológico, com uma suspensão no curso dos acontecimentos, remetendo aos limites da individualidade do personagem, importando mais o desvelamento interior do que a sucessão dos fatos. Não se cumpre a “união mística” entre o herói triunfante e a deusa. A recusa de Blau representa a intuição e a consciência da totalidade que o tornaria senhor absoluto da vida. A teiniaguá é aquilo que não sabe o que é, a abrangência absoluta, englobando o que “existe fora de mim, em volta de mim, superior a mim”. O herói ultrapassa o último limite. Aqui existe um impedimento intransponível, situado na crise psicológica do personagem. Ele ‘pensou no queria dizer e não podia’.

3) A mulher tentação
Trata-se, mais propriamente, duma variante do item anterior. A deusa não é encarada como imagem da totalidade, Mãe Universal, mas como deusa da carne, negação da inocência e, portanto, torna-se “rainha do pecado”.

Blau sabia, antes de entrar na furna, que a teiniaguá estava associada ao Diabo Anhangá-Pitã. E sabia que o Diabo “só não tomou tenência que a teiniaguá era mulher...”, precisamente aqui há um encadeamento entre o discurso de Blau e do sacristão, formando a terceira parte do relato. Segue-se, no depoimento do vulto, a reconstituição dos acontecimentos que retroagem a duzentos anos no tempo passado, o miraculoso aparecimento da teiniaguá na missão jesuítica de São Tomé, seu aprisionamento pelo sacristão e o pacto a que ela o submete, rendendo-o aos seus encantos. Ela é responsável tanto pela felicidade efêmera do sacristão, que tem seu regaço por ninho a cada noite, como por sua desgraça, pois o faz abjurar a fé cristã, ato que lhe custa um alto preço e que ele tem agora plena consciência. A mulher/bicho/imundo induz ao erro e a desgraça e repete-se sempre na fala do vulto, formando a nítida idéia do feminino como imagem do abismo, da desmedida, da desordem; o erotismo não se insere apenas como tentação ou pecado. É a negativa da própria condição da humanidade, pois ocasiona a subversão de tudo aquilo que mantém a ordem entre o indivíduo e sua existência, jogando-o numa condição que já escapa aos domínios da razão e da vontade.

A mulher/demônio associada ao Anhangá-Pitã; a mulher/moura que se vota à destruição da cristandade; a mulher/abismo capaz de provocar a subversão dos sentidos naturais; a mulher/bicho/imundo cuja lembrança é a falsidade, traição e feitiço. O texto configura uma oposição radical entre o feminino e o masculino. O amor versus o destino. É a degradação do mito feminino e do herói na transição do mítico para o histórico. O anticlímax do encontro com a deusa para dar lugar à variante da mulher/bicho/imundo; é a transgressão da estrutura clássica do percurso do herói.

4) A reconciliação com o pai
Não existe na história! Passa a ser um agravante do conflito de Blau!

5) Apoteose do herói
Não existe na história! Passa a ser um agravante do conflito de Blau!

6) A suprema graça
Não existe na história! Passa a ser um agravante do conflito de Blau! Se cumprida toda a trajetória, o herói estaria de posse dos “emblemas da imortalidade”. A subversão do sentido épico do itinerário é subtraído pela crise do personagem. Passamos do universo mítico para o mundo da história, ancorado numa crise psicológica, que intui a totalidade, mas a reconhece inacessível (por isso não é uma lenda e sim, um conto)

O Retorno - a retomada do discurso do narrador
1) A negativa ao retorno
O herói recusa a volta ao mundo humano; é uma hipótese que não ocorre com freqüência na maioria dos mitos.

2) A fuga mágica
Servindo-se do auxílio de recursos sobrenaturais o herói regressa ao espaço de onde partiu para a aventura. Blau formulou a negativa aos sete poderes oferecidos e foi expulso da gruta.

3) O resgate do exterior
O herói empreende o regresso servindo-se do auxílio do mundo humano, isto é, a zona “exterior” ao “espaço sagrado”.

4) A passagem do umbral do regresso
É o ponto crucial da aventura heróica, a passagem do reino mítico ao universo da vida cotidiana dos homens, embora sejam simples frações, imaginam ser a totalidade. A última tarefa é também a mais difícil para o herói: traduzir a linguagem do mundo que os dois reinos, o humano e o divino, são um só, pois a aventura provou que o reino dos deuses é, no fundo, uma dimensão esquecida desse outro reino que conhecemos. A exploração desta dimensão constitui a própria essência do percurso do herói.
Blau passou pelo umbral do regresso, onde deveria conduzir o herói à posse dos dois mundos e à liberdade diante da vida, porém a criação de Simões não tem esse desfecho clássico.

5) A posse dos dois mundos
O herói é convocado a harmonizar os dois mundos, ordem divina e ordem humana, abrindo ao espírito o conhecimento duma no seio da outra, passando da perspectiva das manifestações temporais à das profundidades causais. Tanto no diálogo de Blau com a teiniaguá-mulher/bicho imundo ou com o guardião do cerro, mostra-se inviável a possibilidade de harmonização, sob a ótica católica/patriarcal/simoniana. Esta parte não contém nenhum elemento da lenda arcaica ou clássica. É pura criação simoniana. De volta ao mundo humano – social – ele traz consigo não a mensagem do espaço sacral em que lhe foi permitido ingressar, mas o talismã, um dobrão de ouro furado pelo condão mágico, e que deve torna-lo rico, tirando-o da condição inicial de gaúcho pobre. Este é o grande engano. A moeda mágica não funciona como sinal de salvação, menos ainda como traço de união entre os dois mundos; é um instrumento de contaminação do mundo humano e desgraça da vida individual, prolongamento da maldição engendrada pela teiniaguá.

Blau foi criado na tradição punitiva da moral católica, e deve atravessar, o mesmo padecimento infligido ao vulto que o introduziu na salamanca. Essa é a pior das privações; “ter tanto e não poder gozar nada entre os homens”. Ao retornar ao espaço humano, mas trazendo consigo um signo da mulher/bicho imundo, falsa, sedutora, moura e feiticeira, Blau se torna um corpo estranho e nem há como assegurar a sua localização “social”. Por esse motivo resolve voltar ao cerro e faz a devolução do talismã, pronunciando pela terceira vez a saudação cristã, quebrando o encantamento. Aqui está o percurso verdadeiramente decisivo para o personagem Blau. O conflito interior sobrepujando o herói. À volta ao cerro da Salamanca do Jarau, a fim de purificar-se pela devolução do talismã, que logra destruir o encantamento, reduzindo o espaço circundante à sua primitiva ordem. Mas o encantamento não era (nem para ele, nem para o sacristão) senão o exílio do mundo humano, o ter tanto e não poder gozar nada entre os homens, o estar só e não ter com quem pautear. Uma dupla viagem: a perseguição ao boi-barroso fugitivo que leva a entrada da furna; e a busca de si mesmo através das diferentes etapas do auto-reconhecimento. O ponto de chegada não é a descoberta da teiniaguá, mas a destruição da salamanca, este espaço mítico que contradiz a ordenação do mundo humano e coloca sob ameaça. A aventura provoca uma intuição final, na culminância do processo de autodescoberta, que pertence ao narrador e aos códigos de sua sociedade, opõe-se em tudo e por tudo à amplitude cósmica do mito que precisamente acaba de ser degradado. O percurso heróico é substituído por um processo de indagação psicológica meramente individual. O encantamento do sacristão foi à condenação por desejar o amor do bicho imundo. O de Blau o reduz à solidão, na tentativa de ultrapassar sua condição de não ter nada e poder possuir tudo que não sabe o que é... Blau é diferente do sacristão por ser um tipo, possuidor de valores da cultura a que pertence e mantém a propriedade de corrigir seu erro. Neste complexo jogo de evolução psicológica, com noções do arrependimento, da culpa, da piedade e da remissão, torna-se possível ver os segredos da destruição dos encantos da salamanca e do mito da teiniaguá.

6) A liberdade diante da vida
A aventura se desloca do plano do mito para o psicológico, da rememoração do universo total e totalizante para as fronteiras dum mundo problemático. Blau Nunes, reconhecendo e aceitando sua condição de gaúcho pobre como dantes restabelece a paz em sua vida; e por isso já não é herói, é personagem. A única certeza que lhe resta no fim do percurso, e que assume caráter de verdadeira revelação: o estar certo de que é pobre como dantes mas em paz a sua vida. Unem-se as duas pontas do relato, mesclando a lenda e a invenção pessoal, finalizando a dupla viagem, o percurso geográfico e a travessia psicológica em busca da própria identidade. A última palavra pertence ao narrador, é o fecho do discurso, retoma o encadeamento final dos discursos, garantindo a unidade da narrativa: Anhangá-Pitã não foi mais vista e não tomou tenência que a teiniaguá era mulher...

 

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